PUBLICIDADE
Topo

Queiroz diz que se demitiu! E quanto à sua filha?

                                 Queiroz foi preso no dia 18 de junho                              -                                 NELSON ALMEIDA/AFP
Queiroz foi preso no dia 18 de junho Imagem: NELSON ALMEIDA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

30/06/2020 05h53

Recolhido ao presídio de Bangu 8 desde 18 de junho, Fabrício Queiroz teve de se submeter a um dissabor do qual se esquivava desde o final de 2018, quando virou notícia: prestou depoimento à Polícia Federal. Disse desconhecer o vazamento de informações sobre o relatório do Coaf que o transformaria em estrela do escândalo da rachadinha. Afirmou também que não foi afastado do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Declarou ter pedido demissão.

As declarações de Queiroz tranquilizaram a família Bolsonaro. Mas não fazem nexo. O ex-operador da rachadinha disse ter pedido demissão por duas razões. Estava cansado de trabalhar como assessor político. E precisava cuidar de problemas de saúde.

Para que a versão do cansaço ficasse em pé seria necessário explicar por que a filha de Queiroz, Nathalia, foi demitida no mesmo dia do gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro. De resto, não faria sentido exonerar-se de uma função que assegurava o custeio de assistência médica num instante em que a saúde inspirava cuidados.

Neste primeiro depoimento, Queiroz foi interrogado por videoconferência sobre um episódio que antecedeu o escândalo da rachadinha. Coisa relacionada com a Operação Furna da Onça, que investigou o pagamento de propinas da quadrilha do ex-governador Sérgio Cabral para mais de duas dezenas de deputados estaduais.

O nome de Queiroz cintilou num relatório do Coaf, ao lado de uma movimentação bancária de R$ 1,2 milhão. Flávio Bolsonaro não estava sob investigação. Mas uma boa alma da Polícia Federal decidiu avisar aos Bolsonaro que o gato subira no telhado.

O empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado, contou à Folha no mês passado que um delegado da Polícia Federal avisou à família Bolsonaro sobre a encrenca que estava por vir. O vazamento ocorreu nas pegadas da abertura das urnas do primeiro turno da eleição presidencial de 2018.

Curiosamente, Queiroz foi exonerado do gabinete de Flávio em 15 de outubro de 2018, duas semanas antes do segundo turno da disputa pelo Planalto. No mesmo dia, sua filha Nathalia foi afastada do gabinete de Bolsonaro na Câmara. A simultaneidade estimula a suspeita de que o então candidato ao Planalto queria dissociar-se do sobrenome Queiroz, que estava na bica de se tornar tóxico.

Tudo isso aconteceu antes da chegada do escândalo às manchetes. A primeira notícia sobre a movimentação bancária atípica de Queiroz foi publicada em 6 de dezembro de 2018, no Estadão. Desde então, Bolsonaro e o filho vinham tomando distância de Queiroz. Distanciaram-se tanto que o amigo queixou-se de abandono. Surgiu do nada uma mensagem de WhatsApp na qual Queiroz mencionou a "pica do tamanho de um cometa" que o Ministério Público queria "enterrar na gente".

A imagem do cometa fálico levou Flávio a se referir a Queiroz como um "cara correto" e "trabalhador". E Bolsonaro sentiu-se estimulado a tratar o amigo com apreço no único comentário que fez sobre sua prisão, num imóvel do então advogado dos Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia (SP). "Parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra", solidarizou-se o presidente.

Flávio Bolsonaro também foi intimado a depor para a PF sobre a denúncia de vazamento feita pelo seu suplente no Senado. Será uma ótima oportunidade para eliminar duas dúvidas singelas: Afinal, por que exonerou em 15 de outubro um faz-tudo "correto" e "trabalhador", que o assessorava havia mais de uma década? Por que diabos Jair Bolsonaro afastou Nathalia, a filha do amigo, da folha da Câmara.

Josias de Souza