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Josias de Souza

Jair Bolsonaro recompõe projeto centrão de poder

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/07/2020 22h36

A aproximação de Jair Bolsonaro com o centrão tornou-se um caminho sem volta. Cortejados pelo presidente, os partidos do centrão, como sempre, pleiteiam, pedem, exigem. Esse tipo de política conduz à extorsão. Nada de novo, exceto por um detalhe: eleito esgrimindo a promessa de proteger os cofres públicos, Bolsonaro entra para o time dos presidentes que se dispuseram a pagar o resgate exigido pelo centrão em troca de apoio congressual. A fatura eleva o déficit público e reduz a moralidade a um discurso oco..

Para solidificar o casamento com o centrão, Bolsonaro afasta-se de si mesmo. Ele destitui das vice-lideranças do governo parlamentares bolsonaristas que exibem no Congresso e nas redes sociais um comportamento ácido e encrespado, típico do ex-Bolsonaro. A penúltima vítima foi a deputada Bia Kicis, destituída do posto de vice-líder depois de votar contra a emenda do Fundeb, como teria feito Bolsonaro se ainda fosse deputado.

O presidente amarra o futuro do seu governo nos humores do centrão sob o argumento de que precisa preservar a governabilidade. Isso seria razoável numa articulação feita às claras, em que os envolvidos pudessem apresentar à sociedade as políticas públicas envolvidas na transação. Por ora, só há dois interesses em jogo. A Bolsonaro interessa a sobrevivência política. Ao centrão, o acesso aos cofres públicos. Matrimônios desse tipo sempre evoluem para o patrimônio.

O clientelismo e o fisiologismo são fenômenos tradicionais no Brasil. Mas Bolsonaro havia estimulado no eleitor de 2018 a ilusão de que a banda arcaica da política estivesse encurralada. O centrão existe desde a redemocratização do país. No formato atual, o grupo foi organizado por Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara fisgado na Lava Jato. Cunha está preso. Mas Bolsonaro recompõe metodicamente o projeto centrão de poder.

O centrão é como um estômago hipertrofiado. Devora cada pedaço do poder à sua volta. Bem alimentado, fornece estabilidade congressual. Submetido a dietas forçadas, desestabiliza o que vê pela frente. Bolsonaro acha que já entregou tudo o que havia disponível na despensa do Planalto. Mas o centrão, insatisfeito com tudo, quer um pouco mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza