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Bolsonaro posa de estadista injustiçado na ONU

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/09/2020 13h32

Jair Bolsonaro discursou na abertura da Assembleia Geral da ONU como estadista presumido de um Brasil hipotético. Nos dois temas que o transformaram em vidraça planetária —meio ambiente e pandemia—, o presidente encenou seu papel predileto: o papel de vítima, de benfeitor incompreendido. Houve uma diferença notável em relação ao primeiro discurso de Bolsonaro, feito há um ano na ONU. Mais próximo do pragmatismo do centrão do que da dita ala ideológica do bolsonarismo, o capitão soou mais prático do que ideológico.

Em relação à pandemia, um tema que não existia no ano passado, Bolsonaro escorou-se no STF para jogar no colo dos governadores os quase 140 mil mortos do coronavírus. Ele bem que avisou que havia dois problemas: o vírus e o desemprego. Mas a imprensa brasileira politizou o vírus, disseminando o pânico sob o lema "fique em casa" e a "economia a gente vê depois." E o Supremo o impediu de agir. Quem promoveu o isolamento e restringiu liberdades foram os governadores, esses malvados.

Por sorte, havia um visionário no Planalto. "Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior", disse Bolsonaro, realçando o auxílio emergencial que ajudou brasileiros humildes a encherem a geladeira na crise sanitária. Nenhuma palavra sobre o Congresso, cuja pressão elevou um socorro mixuruca de R$ 200 para R$ 600 por mês. Bolsonaro tratou como obra exclusivamente sua o repasse de "parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares para 65 milhões de pessoas."

O orador deu um jeito de enfiar uma de suas obsessões no discurso. Depois de mencionar os 400 milhões de dólares que seu governo investiu no desenvolvimento e produção da vacina de Oxford, Bolsonaro queixou-se do reajuste de 500% no preço do insumo usado na produção de hidroxicloroquina, esse remédio milagroso que o mundo deixou de aproveitar na pandemia por ignorar o gênio sem comprovação científica que preside o Brasil.

Ao tratar de meio ambiente, Bolsonaro repetiu uma inverdade que estava contida no pronunciamento de um ano atrás: "Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental", disse. Quem se recorda da pregação da campanha contra a indústria de multas ambientais e do desmonte do aparato fiscalizatório no início do governo tem dificuldades para reprimir um sorriso interior. Há uma voz no fundo da consciência que avisa o expectador de que ele está diante de uma farsa.

Atribuiu a má fama do Brasil no mundo não ao descaso com o combate às queimadas na Amazônia e no Pantanal, mas a uma "brutal campanha de desinformação". Coisa apoiada por "instituições internacionais" e "escorada em interesses escusos" de "associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas." Nessa matéria, Bolsonaro continua sendo um presidente capaz de tudo, menos de enxergar um culpado no espelho.

O segundo pronunciamento de Bolsonaro na ONU deixou evidente que a principal crise do Brasil não é sanitária nem ambiental, é semântica. O presidente considera que, apesar de tudo, seu governo está dando certo. O problema é que, ao definir os quesitos, ao escolher os índices, ao fixar os critérios que levam à definição do que significa dar certo, o mundo provavelmente continuará tratando Bolsonaro como uma vistosa vidraça, não como um estadista injustiçado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL