PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Armistício entre ideológicos e militares é ficcional

 O ministro-chefe da secretaria de Governo da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos na saída do Palácio do Alvorada depois de sair para passear por Brasília (DF) de moto com o presidente Bolsonaro nesse domingo (25).  - 25/10/2020 - Foto: WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O ministro-chefe da secretaria de Governo da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos na saída do Palácio do Alvorada depois de sair para passear por Brasília (DF) de moto com o presidente Bolsonaro nesse domingo (25). Imagem: 25/10/2020 - Foto: WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/10/2020 18h56

O general Hamilton Mourão aplicou uma lógica da caserna à desavença que levou o ministro civil Ricardo Salles (Meio Ambiente) a chamar o ministro militar Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) de "banana de pijama" e "Maria fofoca". Na definição do vice-presidente, "os ministros são o Estado Maior do presidente." Se há alguma rusga, "o comandante tem que intervir e dizer: 'Vamos baixar a bolinha aí, vamos acalmar'."

Não se ouviu do "comandante" Jair Bolsonaro nenhuma palavra em público que sinalizasse a intenção de colocar ordem na Esplanada. Armou-se no final de semana uma coreografia para salvar as aparências. Numa nota, Salles disse ter pedido desculpas. Noutra, Ramos declarou que a questão está encerrada. E o hipotético comandante passeou de moto com "Maria fofoca."

Nada disso resolveu a questão de fundo. Continuam coabitando o governo dois grupos que não suportam um ao outro: a ala ideológico-apocalíptica, adorada por Bolsonaro e apoiada pelos filhos Eduardo e Carlos; e a banda militar, que já não sabe onde se apoiar.

Aos pouquinhos, os generais vão se tornando asteriscos humilhantes. Bolsonaro os humilha, como fez com o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, ao desautorizar um acordo que havia avalizado. O presidente permite que os generais sejam humilhados, como fez no ano passado com Carlos Alberto dos Santos Cruz e, agora, com Ramos, sucessor dele na coordenação política. Os generais humilham-se a si mesmos ao não traçar um limite para a dieta de sapos que engolem regularmente.

Até outro dia, o general Augusto Heleno (GSI), um dos comandantes de escrivaninha do Planalto, cantava em convenção partidária que, se gritar pega ladrão, não fica um do centrão. Agora, o bloco ideológico atribui a Luiz Eduardo Ramos e à ala militar o acerto do presidente com o centrão. E Bolsonaro, que levou a barriga ao balcão voluntariamente, se finge de morto, estimulando a desavença que dá ao governo uma aparência de balbúrdia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL