PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se Bolsonaro mudar de ramo, imprensa instantaneamente mudará de assunto

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/03/2021 16h40

Antes da pandemia, Jair Bolsonaro exercia o monopólio da crise. Fabricava crises em série. Como um fumante contumaz, que acende um cigarro no outro, o presidente saía de uma crise fabricando outra maior. Depois da pandemia, o capitão passou a disputar com o coronavírus a primazia na produção de distúrbios. No momento, o vírus dedica-se a infectar em maior escala. Bolsonaro, até ontem, se esforçava para produzir uma guerra federativa, chamando governadores para a briga. Hoje, lembrou que estava esquecendo de atacar também a imprensa.

Nesta quarta-feira, ao praticar seu esporte favorito —lançamento de culpas à distância— Bolsonaro produziu um combo ofensivo. Juntou um ataque à mídia a uma investida contra a turma do isolamento. "Criaram o pânico, né? O problema tá aí, lamentamos, mas você não pode viver em pânico", disse ele sobre a imprensa. "É que nem a política, de novo, do 'fica em casa'. O pessoal vai morrer de fome, de depressão", declarou, mirando a estratégia dos governos estaduais.

Bolsonaro acha que a imprensa confunde a sua figura com a do coronavírus. "Para a mídia, o vírus sou eu", disse. Prefere adotar a tática do avestruz a acompanhar o noticiário. Com a cabeça enfiada nas suas idiossincrasias, o capitão disse que já não assiste ao Jornal Nacional. Não lê coisa nenhuma. "Se você ler a imprensa, você não consegue viver. Cancelei [...] todas as assinaturas de jornais e revistas. Ministro que quiser ler jornal e revista vai ter que comprar. Não leio mais..."

O inquilino do Planalto ainda não percebeu. Mas a imprensa não é parte da crise, apenas se alimenta dela. Os meios de comunicação levam à plateia as crises que o presidente fabrica. E a usina funciona a todo vapor, com expediente estendido nas redes sociais. Nem Paulo Guedes, que supostamente seria o detentor da última palavra sobre economia, está livre das balas perdidas. Foi numa live transmitida no Facebook que Bolsonaro informou que alguma coisa aconteceria Petrobras. Deu no que está dando.

Num regime presidencialista, o governo tem a cara do presidente. Sob Bolsonaro, o semblante que prevalece é o da crise. Pena. No momento, a imagem de que o país precisa é a da tranquilidade. Se Bolsonaro mudar de ramo, passando a fabricar soluções em vez de problemas, a imprensa mudará instantaneamente de assunto. O mais irônico é que a gestão Bolsonaro tornou-se um governo ideal para a implantação de um modelo absolutamente novo. Caos não falta.

As manchetes estão ávidas para informar sobre a troca do ministro da Saúde, a instalação de um comitê de gerenciamento nacional da crise, moderação no timbre e, sobretudo a celebração de contratos para a compra de vacinas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL