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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Reação de Bolsonaro à ordem judicial sobre CPI tem pé, mas não tem cabeça

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/04/2021 17h06Atualizada em 09/04/2021 22h12

Quando Bolsonaro se apropria de uma notícia, os fatos se perdem para sempre, sobretudo quando ele é o protagonista. Não é que a reação do presidente ao noticiário sobre a CPI tenha soado sem pé nem cabeça. O problema é que há nas manifestações de Bolsonaro muito pé — ou pontapé — e pouca cabeça.

Mordido com a determinação de Luís Roberto Barroso para que o Senado instaure a CPI da Covid, Bolsonaro distribuiu chutes retóricos no ministro do Supremo. Acusou-o de mandar destravar a CPI por "militância política". Disse que falta "coragem moral" ao ministro para mandar desengavetar os pedidos de impeachment contra seus colegas do Supremo no Senado.

Faltaram miolos ao raciocínio de Bolsonaro, pois Barroso não fez senão julgar pedido protocolado no Supremo por dois senadores do partido Cidadania: Alessandro Vieira e Jorge Cajuru.

Apresentaram-lhe um requerimento de CPI. Exibiram os três requisitos exigidos pelo parágrafo 3º do artigo 58 da Constituição para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito: 1) apoio de um terço dos membros da Casa; 2) especificação do fato a ser investigado; e 3) tempo de duração da investigação.

Barroso içou dos arquivos do Supremo a jurisprudência sobre a matéria. Muniu-se de três precedentes: 1) Em 2005, a Suprema Corte ordenou ao Senado que instalasse a CPI dos Bingos. Enterrou manobras do PT; 2) Em 2006, deferiu pedido do PT para interromper manobra do PSDB que impedia a deflagração de CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo; 3) Em 2007, o Supremo contrariou novamente o petismo, mandando abrir na Câmara a CPI do apagão aéreo. Nessa época, o então deputado Bolsonaro rogava pela "militância" do Judiciário: "É o Supremo. Espero que tenha uma decisão lá, voltada para a razoabilidade, e deixe instalar a CPI."

Abandonado pelo cérebro, Bolsonaro absteve-se de acionar sua própria "coragem moral" para endereçar ao remetente correto a cobrança sobre os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. Essa decisão não cabe a Barroso, mas a um aliado do governo, o presidente do Senado Rodrigo Pacheco, o mesmo que retardava a instalação da CPI.

Há nas gavetas de Pacheco uma dezena de pedidos de impeachment de togas. Alguns pedem o afastamento de todos os membros da Suprema Corte. Outros são dirigidos a alvos específicos: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Edson Fachin e Cármen Lúcia. Bolsonaro decerto chamará o aliado Pacheco para uma conversa.

Até ontem, Bolsonaro tinha uma visão peculiar sobre a crise sanitária. A pandemia era uma "gripezinha" que estava no "finzinho". E a segunda onda não passava de "conversinha". De repente, o capitão preocupou-se com as mortes e a necessidade de pacificar o ambiente.

Não é de CPI que o Brasil precisa, insinuou Bolsonaro. "Vivemos um momento crítico de pandemia, pessoas morrem, e o ministro do Supremo Tribunal Federal faz politicalha junto ao Senado Federal!" Bolsonaro dando lições de pacificação ao mesmo tempo em que abre nova crise com o Supremo é como criança que toma banho e sai à rua para brincar na lama.

O pé de Bolsonaro está sempre pronto a entrar em ação. Sua cabeça é diferente. Começa a funcionar na hora em que o presidente se levanta da cama. E não para até que ele encontre com os seus devotos na frente do Palácio da Alvorada. A milícia bolsonarista segue o mito. Reproduz na internet os mesmos pontapés, com a mesma falta de lógica.

O autoengano pressupõe que a distinção entre verdade e falsidade, entre a realidade e a fantasia, desaparece nas cabeças que se desligam dos fatos. O truque, por repetitivo, já ficou manjado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL