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Josias de Souza

Reação de governistas à CPI vira uma antiapoteose estrelada pelos 'maricas'

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/04/2021 04h02

Bolsonaro, como se sabe, acredita que o Brasil "tem que deixar de ser um país de maricas", enfrentando o vírus de "peito aberto". Mas a tropa do presidente no Senado atingiu o cume do cinismo ao esgrimir o argumento segundo o qual a CPI da Covid, formalizada em plenário nesta terça-feira, só pode funcionar depois que todos estiverem vacinados.

"Enquanto não tiver condição de funcionar com pessoas imunizadas, peço que a CPI não possa funcionar presencialmente", declarou o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder de Bolsonaro no Congresso, ao apresentar uma questão de ordem na sessão virtual desta terça-feira.

Autor do pedido de CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) foi ao ponto: "Na velocidade que a vacinação está hoje no Brasil, só teremos pessoas adultas imunizadas, em uma hipótese otimista, até dezembro ou janeiro do ano que vem." Para Randolfe, o governo tenta driblar a ordem do Supremo que retirou a CPI da gaveta. Ele defende que a comissão se reúna por videoconferência ou em sessões semipresenciais.

A esse ponto o governo chegou: Num instante em que o brasileiro morre nas filas de UTI, a escassez de vacinas, flagelo a ser investigado pela CPI, virou pretexto da tropa do capitão para matar o tempo. Em minoria na comissão, o governismo adere à política do isolamento social para tentar se reposicionar em cena.

Futuro integrante da CPI, o senador Omar Azis (PSD-AM) realizou uma intervenção cirúrgica: "Os senadores que não querem que instale a CPI agora, querem aguardar o momento adequado. No momento adequado, teremos 500 mil mortes, 600 mil mortes no Brasil, porque o que estou vendo é que estão querendo protelar."

Hoje, a pilha de cadáveres, monumento que o vírus ergueu para imortalizar a inépcia do governo Bolsonaro, roça a marca de 360 mil. Se fosse um presidente lógico, Bolsonaro chamaria sua tropa para repetir uma de suas célebres frases: "O vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque."

Ou o presidente reage ou a estratégia do governo no Senado vai acabar transformando a gestão Bolsonaro numa espécie de paródia de si mesma —uma pantomina estrelada pelos "maricas" da turma do 'fique em casa'."