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Josias de Souza

Fundo eleitoral testa resistência do saco nacional

Fundo eleitoral: dinheiro de partidos pode chegar a R$ 5,7 bilhões - Roque de Sá/Agência Senado
Fundo eleitoral: dinheiro de partidos pode chegar a R$ 5,7 bilhões Imagem: Roque de Sá/Agência Senado
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/07/2021 15h13

O Congresso aprovou a LDO, Lei de Diretrizes Orçamentárias. O texto inclui um aumento do fundo que custeará as eleições de 2022. Saltou para R$ 5,7 bilhão. Isso é o triplo do que foi investido nas eleições de 2018. A coisa passou em votação simbólica, sem que deputados e senadores precisassem levar a cara à vitrine. Às claras, esse avanço sobre o bolso do contribuinte seria vergonhoso. No escurinho do voto simbólico, tornou-se escabroso. Na prática, é um desafio à paciência alheia, uma espécie de teste de resistência para verificar quais são os limites do saco nacional.

Mal comparando, é como se os congressistas, num inusitado retorno à infância, decidissem brincar de soprar balões em festas infantis para descobrir qual é o ponto exato de ruptura que antecede a explosão. Alega-se que a democracia tem um custo. Sustenta-se que o Supremo Tribunal Federal transferiu esse custo para o Tesouro Nacional quando proibiu o financiamento privado, com doações eleitorais de empresas. Tudo isso é verdadeiro. Mas o Congresso não está autorizado a tratar dinheiro público como dinheiro grátis.

Considerando-se que as eleições gerais de 2018 custaram R$ 1,8 bilhão e que o Tesouro Nacional está quebrado, os parlamentares se desobrigam de fazer sentido quando tiram dinheiro de áreas como saúde e educação para engordar o Bolsa Eleição. A falta de nexo é potencializada pela atmosfera de fúnebre da pandemia, em que o sofrimento da sociedade brasileira triplica sob os efeitos do morticínio, do desemprego e da fome.

A LDO estima que o Orçamento da União para 2022 deve fechar no vermelho. O buraco será de notáveis R$ 170,7 bilhões. Tirar dinheiro de setores estratégicos para engordar as arcas dos partidos é como cutucar a sociedade com o pé para ver se ela morde. Quem já encheu balões na infância sabe que o ponto exato de ruptura só costuma ser descoberto quando não adianta mais nada. Ao turbinar o fundão eleitoral, os congressistas revelam uma disposição alucinada para buscar o ponto de ruptura. Ainda não se deram conta de que o saco nacional já está cheio.