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Josias de Souza

Cerco do centrão e do Judiciário escancara fragilidade do governo Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/08/2021 05h11

O matrimônio de Bolsonaro com o centrão evoluiu para o estágio do patrimônio no instante em que o presidente, eleito como político antissistema, entregou as chaves de sua Casa Civil ao sistêmico senador Ciro Nogueira. Na cerimônia em que Nogueira apossou-se da "alma" do governo, a tropa do centrão, chamada de "escória" por Bolsonaro em 2018, tomou de assalto os salões do Planalto. O novo ministro apresentou-se como "amortecedor" de um presidente que, cercado pelo Judiciário, precisa de para-choques. Enfraquecido, Bolsonaro pagará um preço alto pela "governabilidade" que lhe foi oferecida pelo centrão. Como de costume, a conta será espetada no déficit público, eufemismo para bolso do contribuinte.

A formalização do relacionamento de Bolsonaro com o centrão foi celebrada numa festança realizada na casa do ministro Fábio Faria (Comunicações). O grupo tinha razões para celebrar. Enxerga no derretimento do governo uma oportunidade a ser aproveitada. Horas antes, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, incluíra Bolsonaro no rol de investigados do inquérito sobre fake news. No total, o presidente passou a estrelar meia dúzia de processos —três no Supremo, onde correm também os inquéritos sobre o aparelhamento da Polícia Federal e a suspeita de prevaricação no caso Covaxin; outros três no TSE, onde tramitam o recém-aberto inquérito das mentiras sobre urnas eletrônicas e um par de pedidos de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão.

A despeito do cerco, Bolsonaro não se deu por achado. Dobrou a aposta numa entrevista à rádio Jovem Pan: "Não vai ser o inquérito, agora na mão do senhor querido Alexandre de Moraes, para tentar me intimidar. Ou o próprio, lamento, o TSE tomar certas medidas para investigar, me acusar de atos antidemocráticos... Eu posso errar, tenho direito a criticar, mas não estamos errados." O presidente chamou de ilegal o inquérito sobre notícias falsas, aberto pelo então presidente do Supremo, Dias Toffoli, sem ouvir o Ministério Público. E ameaçou reagir fora dos limites da Constituição.

O processo "está dentro das quatro linhas da Constituição?", indagou Bolsonaro. Ele mesmo respondeu: "Não está." O complemento como que embalou os brindes erguidos pelo centrão na festa noturna que se seguiu à posse de Nogueira: "Então, o antídoto para isso também não é dentro das quatro linhas da Constituição", declarou Bolsonaro. "Aqui ninguém é mais macho do que ninguém". A valentia do capitão elevará o preço do apoio dos coronéis da tropa da "escória". Bolsonaro avalia que pode comprar brigas à vontade porque tem o centrão. Engano. Agora, o centrão é que tem o presidente. Bem pago, oferecerá ao presidente a ilusão de que preside. Desatendido, fechará a conta.

Toda campanha eleitoral tem um quê de teatro. A teatralização da sucessão de 2018 viveu um momento inusitado quando Bolsonaro criticou o então rival tucano por encostar a candidatura no centrão. "Obrigado, Geraldo Alckmin, por ter unido a escória da política brasileira", declarou, em julho de 2018. O capitão, que agora admite que sua "alma" sempre foi do centrão, apenas cuspia num prato em que o grupo não permitiu que ele comesse. Na semana anterior, frustrara-se a tentativa de firmar aliança com o PL. Planejava-se fazer do então senador Magno Malta (PL-ES) o vice de Bolsonaro. Mas o ex-presidiário e mensaleiro Valdemar Costa Neto, dono do PL, preferiu se entender com Alckmin.

Mandachuva do PP, legenda que frequentou o topo do ranking de encrencados da Lava Jato, o agora ministro Ciro Nogueira, ele próprio um cliente de caderneta da operação anticorrupção, também cedeu o tempo de propaganda eleitoral do seu partido para o tucano Alckmin. Nesta quarta-feira (4), Valdemar era uma das estrelas da posse de Ciro. Há três anos, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, cantarolava na convenção em que Bolsonaro tornou-se candidato ao Planalto pelo PSL: "Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão..." Na invasão do centrão à sede do governo, o general Heleno trocou um animado dedo de prosa com dois coronéis da desonestidade: o novo colega Ciro e o presidente da Câmara Arthur Lira. A cena teve uma aparência de rendição.

No DNA do centrão está gravada a expressão "é dando que se recebe". Retirada da oração de São Francisco, passou a simbolizar uma prática profana: a exigência de vantagens —lícitas e, sobretudo, ilícitas— em troca de apoio político no Legislativo. Quem lançou a moda foi o deputado Roberto Cardoso Alves (1927-1996), do PMDB de São Paulo. Robertão, como era conhecido na intimidade, inaugurou a facção franciscana do fisiologismo em março de 1988. Na época, o Congresso Constituinte discutia a prorrogação do mandato do então presidente José Sarney para cinco anos. Foi dando que Sarney recebeu. A moda perdura até agora.

No intervalo de três décadas, o vocábulo "governabilidade" ganhou um sentido gangsterístico. Virou um outro nome para corrupção. Serve de álibi para que políticos invadam os cofres públicos. A anomalia marcou todos os governos desde a redemocratização. Ganhou escala industrial sob Lula e Dilma. Imaginou-se que a Lava Jato encurralaria o pedaço mais arcaico da política. Em maio de 2016, quando tomou posse, Michel Temer disse, em discurso: "A moral pública será permanentemente buscada" no meu governo. Afirmou que a Lava Jato, "referência" no combate à corrupção, teria "proteção contra qualquer tentativa de enfraquecê-la."

As palavras de Temer viraram pó. Ou lama. Candidato, Bolsonaro enrolou-se na bandeira da Lava Jato. Eleito, levou para sua equipe Sergio Moro, símbolo da força-tarefa de Curitiba. Hoje, Moro foi reduzido à condição de um ex-juiz cuja atuação nos processos contra Lula foi sentenciada como "suspeita" pelo mesmo Supremo que processa Bolsonaro depois de devolver o ex-presidiário do PT ao jogo eleitoral de 2022, lavando-lhe a ficha suja.

Seis anos de combate à corrupção fizeram do Brasil o local ideal no mapa para o surgimento de um país eticamente renovado. Imoralidade não falta. Ao sedimentar seu relacionamento com o centrão sem levar à vitrine nada que se pareça com interesse público, Bolsonaro escancara sua fragilidade. Desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro declara guerra ao mundo. Em sua penúltima incursão, guerreia contra a estabilidade da democracia. Pela lógica, um governante que derrete deveria buscar aliados e evitar brigas. Mas a única lógica que Bolsonaro conhece é a lógica do confronto.

Essa obsessão pela guerra tem suas raízes nos 28 anos de exercício de mandato parlamentar. O problema é que, na Câmara, o custo do destempero e dos xingamentos de Bolsonaro limitava-se ao desperdício de verbas públicas com o pagamento do seu contracheque e com as rachadinhas proporcionadas pela estrutura administrativa do seu gabinete. Na Presidência da República, o custo é mais alto. O centrão faz festa porque sabe que, nesse tipo de conjuntura, não perde por esperar. Ganha!