PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Bolsonaro pronuncia na ONU um fake pronunciamento sobre um Brasil paralelo

Conteúdo exclusivo para assinantes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/09/2021 12h57

Muitos políticos são fraudes. A diferença é que alguns admitem. Bolsonaro nega. Munido de autocritérios, o presidente brasileiro despejou sobre a tribuna das Nações Unidas um fake pronunciamento. Mentiu sobre corrupção, pandemia, meio ambiente, economia... Mentiu até sobre o 7 de Setembro.

Bolsonaro falou para o mundo como se conversasse com seus devotos no cercadinho do Alvorada. Ou na live de quinta-feira. Não é que a fala de Bolsonaro diminua o Brasil perante o mundo. O país já encolheu o suficiente. A questão é que Bolsonaro diminui o Brasil perante os próprios brasileiros.

Confundindo amnésia com consciência limpa, o orador falou como se não devesse nada para ninguém. No Brasil paralelo descrito na ONU, Bolsonaro livrou os brasileiros do socialismo, acabou com a corrupção, atenuou com um auxílio emergencial de US$ 800 o desastre sanitário produzido por governadores e prefeitos malvados, criou um paraíso para os investidores e produziu empregos em profusão. Nesse enredo, o único problema do Brasil é que seu presidente mente um pouco.

A certa altura, Bolsonaro soou na abertura da Assembleia Geral da ONU como um governante sem comprovação científica. Fez isso ao enaltecer a cloroquina e mandracarias assemelhadas do seu tratamento precoce como remédios de alguma serventia no tratamento contra a covid. Apresentou-se como prova viva da eficácia de medicamentos que a mídia, o mundo e quase 600 mil cadáveres brasileiros ignoraram.

Faltou ao pronunciamento de Bolsonaro uma dose do calmante Michel Temer. Sem a caligrafia do ex-presidente, o fiasco golpista de 7 de Setembro virou a "maior manifestação de nossa história". Uma demonstração para o mundo de que o Brasil não abre mão da democracia que Alexandre de Moraes, o ex-canalha, se esforça para aviltar.

Foi reconfortante o passeio que Bolsonaro realizou na ONU pelo Brasil paralelo em que escolheu viver. Infelizmente, os fatos não deixam de existir apenas porque o presidente falseia ou distorce. Infelizmente, a realidade ainda é o único lugar onde um país pode conseguir a sanidade necessária para deixar de ser a chacota planetária em que Bolsonaro transformou o Brasil.