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Josias de Souza

Queiroga tem que se desculpar e pedir para sair

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/09/2021 05h07

Marcelo Queiroga tornou-se um sujeito sem sorte. Quarto ministro da Pandemia de um presidente negacionista, assumiu há seis meses prometendo destravar a vacinação. Há uma semana, tropeçou na própria língua ao trombetear uma urucubaca: "Há excesso de vacinas." Faltavam doses em pelo menos seis estados.

De repente, o doutor trancou a vacinação de adolescentes. Fugindo da Anvisa à tarde, foi parar numa live de Bolsonaro à noite. Amanheceu pendurado de ponta-cabeça nas manchetes. Apanhou de onze em cada dez especialistas. Foi ignorado por governadores e prefeitos.

Fugindo do tiroteio, Queiroga imaginou que seria uma boa ideia integrar a comitiva de Bolsonaro à ONU. Virou coadjuvante de uma caravana de horrores comandada pelo único chefe de estado do G-20 que não se vacinou contra a covid. Em pé, comeu na calçada a pizza que o Tinhoso amassou. Sentado, aplaudiu nas Nações Unidas o discurso em que o capitão receitou o seu kit-cloroquina para o planeta.

Infectado pelo bolsovírus, o doutor ergueu o dedo do palavrão para antibolsonaristas em Nova York. Menos de 24 horas depois, recebeu uma banana do Supremo, que transferiu para governadores e prefeitos a palavra final sobre a vacinação da rapaziada com mais de 12 anos.

Quando se preparava para embarcar de volta, o vacinado Queiroga recebeu do sem-vacina Bolsonaro a notícia de que testara positivo para o coronavírus. Foi deixado para trás.

Em conversa com a repórter Carla Araújo, Queiroga não esboçou arrependimento pelo gesto obsceno que o levou às manchetes de cabeça para baixo pela segunda vez no curto intervalo de uma semana. Considera-se alvo de críticas "injustas e infundadas". Mantendo-se nesse diapasão bolsonarizado, vai acabar recorrendo ao tratamento precoce.

O doutor deveria aproveitar a quarentena nos Estados Unidos para visitar uma encruzilhada nova-iorquina, de madrugada, na companhia de um bom mandingueiro. Livrando-se da urucubaca, Queiroga pode pedir perdão. Depois, precisa pedir para sair. Um médico que ornamenta com o seu CRM um governo presidido pelo capitão cloroquina não pode ser ministro da Saúde.