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Josias de Souza

'Choro' de Bolsonaro derruba lágrimas cenográficas sobre o leite derramado

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/10/2021 09h18

Nada mais equivocado do que afirmar que Bolsonaro não usa máscara. O presidente tornou-se o mais mascarado dos brasileiros. Usa uma máscara diferente para cada ocasião. Num culto evangélico, em Brasília, trocou a máscara de "imorrível", "imbrochável" e "incomível", que costuma usar no cercadinho, pelo disfarce de chorão.

"Cada vez mais nós sabemos o que devemos fazer, para onde devemos direcionar as nossas forças", disse Bolsonaro aos devotos. "Quantas vezes eu choro no banheiro em casa? Minha esposa nunca viu. Ela acha que eu sou o machão dos machões. Em parte acho que ela tem razão até", acrescentou o orador, com nítida dificuldade para conter o risinho interior.

É improvável que o capitão se tranque no banheiro para chorar escondido de Michelle. Mas ainda que chorasse, Bolsonaro derramaria lágrimas sobre o leite derramado. Ele diz que sabe o que deve ser feito. O diabo é que se especializou em fazer o oposto do que é necessário.

Quando declara que o sofrimento lhe vaza pelos olhos, Bolsonaro insinua que a culpa pelas mazelas nacionais é de terceiros. E que não há muito o que ele possa fazer além de chorar no banheiro. Nessa versão compungida, o presidente se torna o inocente mais culpado da história.

A pose de gestor bem-intencionado não orna com os erros e, sobretudo, com os crimes cometidos por Bolsonaro. Alguns desses crimes serão grudados em sua biografia pela CPI da Covid. Estrela do relatório final da investigação parlamentar, Bolsonaro será apontado como principal responsável pelo leite intoxicado que foi derramado sobre os mais de 600 mil cadáveres da pandemia.

Na presidência, Bolsonaro protagonizou episódios que envergonhariam um garçom de boteco. A pose de chorão não elimina a convicção de que Bolsonaro não é o tipo de sujeito a quem se deve confiar uma bandeja com um copo de leite, mesmo que metafórico.

O choro do presidente é cenográfico. As lágrimas que ele arranca dos brasileiros são reais. E não podem ficar impunes. Está cada vez mais evidente que é preciso punir o leite derramado. Se o castigo não vier durante o mandato, virá depois.