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Josias de Souza

Bolsonaro X Moro parece uma briga de gambás

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/12/2021 10h04

Houve um tempo em que Sergio Moro enxergava em Bolsonaro um defensor da Lava Jato e o capitão via no ex-juiz de Curitiba as qualidades de um superministro da Justiça. Hoje, os dois informam que consideram um ao outro pessoas de baixíssima qualificação. Ainda não notaram. Mas a troca de ataques oferece à plateia um festival de autodesqualificação.

Bolsonaro dedicou seis minutos de sua live a Moro. Chamou seu ex-ministro de "palhaço" e "mentiroso". Disse que ele "não tem caráter". Horas antes, numa entrevista concedida a proposito do lançamento do seu livro, Moro dissera que o ex-chefe, em vez de ajudá-lo no esforço para restabelecer a regra que permitia a prisão de condenados na segunda instância, festejou a libertação de Lula por achar que isso lhe renderia dividendos políticos.

"Mentiroso deslavado", respondeu Bolsonaro. O capitão fez uma pergunta típica dos grandes professores: "Aprendeu rápido a velha política, hein, Moro?" Bolsonaro jogou no ventilador a Vaza Jato, calcanhar de vidro de Moro. A certa altura, a pretexto de rebater a acusação de que se rendeu à velha política, Bolsonaro perguntou, estalando de cinismo, se Moro não sabia que grupo político ele integrou antes de virar presidente. "Como se todo mundo do Centrão não prestasse", disse.

Essa troca de ofensas é muito didática. É como se os dois contendores, depois de andar de mãos dadas descalços, se dedicassem a plantar espinhos no caminho um do outro. O problema de uma discussão de duas pessoas que acham que o outro não cheira bem é o mesmo de dois gambás que decidem brigar. Mesmo quem ganha a briga sai fedendo.