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Josias de Souza

A pergunta não é mais 'onde vamos parar?' A indagação é 'onde vão detê-lo?'

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/12/2021 20h08Atualizada em 08/12/2021 14h20

Você eu não sei, mas muitos brasileiros não aguentam mais. Quando parece que todos os desejos de Bolsonaro se realizaram —o evangélico garantido no Supremo, a Michelle dando seus pulinhos, o Valdemar dando as cartas, o Guedes gerenciando o populismo eleitoral, as provas da rachadinha do primogênito anuladas, a Laurinha matriculada no Colégio Militar na base da carteirada, nenhuma barbeiragem nova na pasta da Educação em uma semana—, surge mais um atentato do presidente contra a saúde pública.

Diante do "risco iminente de disseminação" da cepa ômicron, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, intimou o governo a explicar em 48 horas por que não foi colocada em prática a recomendação da Anvisa de exigir comprovante de vacinação dos viajantes que chegam ao Brasil. Todos conhecem a resposta: o Bolsonaro proibiu! Mas o Judiciário tem os seus ritos. O diabo é que, em plena era da inteligência artificial, Bolsonaro vem exercitando sua ignorância natural na pandemia há quase dois anos.

O suposto presidente da hipotética República disse ao site Poder 360 que, se alguém instituir o passaporte da vacina, "eu veto". Ai, ai, ai. "Hoje querem impor algo que alguns não querem", declarou o soberano. "Por exemplo: eu não tomei vacina. Alguém vai me demitir por causa disso? Ah, eu sou um péssimo exemplo! Olha, isso chama-se liberdade." Certo, muito certo, certíssimo. Mas a liberdade concedida aos imbecis para pronunciar livremente suas imbecilidades não inclui o direito de ser levados a sério. O fato de um presidente tolo ignorar a realidade não faz com que a realidade desapareça.

A coisa se arrasta indefinidamente. O brasileiro que consegue escapar do desemprego, da fome e do vírus faz um balanço de suas preocupações e pensa consigo mesmo: "Hoje vou dormir tranquilo." E Bolsonaro não deixa. O cérebro do presidente começa a funcionar no instante em que ele acorda. E não para até que ele chegue ao cercadinho. Ou encontre um microfone. Não passa um dia sem que os miolos do Bolsonaro não fervam.

Houve um tempo em que se perguntava: "Sabe a última do papagaio?" Hoje, indaga-se: "Sabe a penúltima do Bolsonaro?" A diferença é que a do papagaio tinha graça. O Brasil precisa atualizar suas interrogações. Já não faz sentido peguntar "onde vamos parar?" O questão essencial é "onde vão detê-lo?"