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Josias de Souza

Fundão e emendas transformam eleições brasileiras numa loteria sem prêmio

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Imagem: Shutterstock
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/12/2021 11h09

O Orçamento da União para 2022 prevê investimentos de R$ 44 bilhões. O governo nunca investiu tão pouco. No comando da análise e aprovação da lei orçamentária no Congresso, a oligarquia política reservou um montante praticamente igual para investir na sua própria sobrevivência política: R$ 44,3 bilhões. Isso inclui o fundão eleitoral (R$ 4,9 bilhões), o fundo partidário (R$ 1,1 bilhão), a renúncia tributária de emissoras de rádio e TV pela veiculação de propaganda de candidatos (R$ 738 milhões) e as emendas orçamentárias dos congressistas (R$ 37,6 bilhões).

O regime democrático, como se sabe, tem um preço. Entretanto, a destinação de um volume recorde de dinheiro público para o financiamento da atividade política é escandalosa, constrangedora e lesiva. Escandaliza porque a fome o desemprego indicam que o país tem outras prioridades. Constrange porque a verba pública é direcionada para candidatos que condenam o eleitor a optar entre o lamentável e o impensável. Lesa porque o contribuinte paga caro por uma democracia feita de três Poderes e 213 milhões de impotências.

Promovido pelos dirigentes partidários, o rateio das verbas eleitorais virou uma ação entre amigos. Os maiores beneficiários são os próprios donos das legendas e quem já dispõe de mandato. Isso eterniza o atraso, inibindo a renovação. Quanto às emendas enganchadas no orçamento federal, a maioria dos congressistas utiliza a verba para comprar a simpatia dos prefeitos que se engajarão nas suas campanhas.

Sob Bolsonaro, surgiram as emendas de relator, que pioraram o soneto. No ano eleitoral de 2022, elas custarão R$ 16,5 bilhões. São distribuídas sem transparência num cercadinho VIP que inclui a nata do centrão e oposicionistas que têm o diâmetro do cérebro inferior ao do seu bolso. Juntos, os fundos e as emendas transformam as eleições brasileiras numa loteria sem prêmio.

Os presidenciáveis reagem à anomalia com um silêncio que soa como cumplicidade. Lula e Bolsonaro, primeiro e segundo colocado nas pesquisas, negociam alianças partidárias com as mais ricas caixas registradoras, acima de R$ 1 bilhão.