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Josias de Souza

Lula quer voltar ao Planalto sem levantar o tapete

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/01/2022 19h05

Lula deu entrevista à CBN Vale do Paraíba. A certa altura, declarou que deseja fazer campanha debatendo ideias. "Não vou jogar o jogo rasteiro de alguns adversários, não vou entrar no lamaçal que eles estão entrando na perspectiva de me atacar", disse ele. "Quero saber quem vai resolver o problema do emprego, o problema da economia, quem é que vai reconquistar a credibilidade do país."

Noutro ponto da conversa, Lula afirmou que "o Brasil é um país grande, tem tudo." Resumiu assim os seus objetivos: "O que precisa é a gente ter vergonha na cara e saber governar."

Sobre o relacionamento com o Congresso, Lula repetiu uma obviedade: "Você negocia com quem está eleito." Tratou antigos aliados como futuros parceiros: "Eu não vejo problema em conversar com o Centrão. [...] Você negocia com quem tem mandato para poder aprovar as coisas que precisam ser aprovadas."

O PT passou quase 14 anos no Poder federal, oito dos quais sob a presidência de Lula. A exemplo do que fizeram antecessores, Lula optou por sustentar seus governos sobre um paradoxo: diante dos refletores, dizia transformar o Brasil. No escurinho, avalizava acertos que transfiguraram o vocábulo governabilidade. O fisiologismo virou uma espécie de abracadabra para a caverna de Ali-Babá. O Brasil evoluiu da condição de escândalo para a de escárnio.

Todo brasileiro de bem deseja saber dos presidenciáveis o que farão para promover o crescimento econômico, criar empregos e restaurar a credibilidade do país. Mas a pretensão de Lula de percorrer a conjuntura eleitoral como se nada tivesse sido descoberto sobre o lamaçal que escorreu nos subterrâneos do seu governo é um acinte.

No Brasil, a perversão ora se esconde atrás de palavras terminadas com a desinência 'ão' —mensalão e petrolão—, ora se apresenta na forma de um palavrão arrematado com um sufixo diminutivo —rachadinha. Hoje, todos os gastos são pardos no pedaço do Orçamento executado secretamente pelo centrão. Num país assim, a lama é parte do problema.

Ainda não se sabe quem será o próximo presidente. Mas há na praça uma sólida certeza: seja quem for o ocupante do trono, terá de se acertar com o centrão. Convém esclarecer como fará para evitar a reiteração dos escândalos.

A campanha presidencial de 2022 não será completa sem que o grande tapete nacional seja levantado. O chorume escorre pelas bordas. Quem tem vergonha na cara não consegue ignorar.