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Josias de Souza

Lula se aproxima de Deus e do fiasco na Time

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/05/2022 20h45

Em entrevista à revista americana Time, Lula escalou um salto agulha, bem mais alto do que recomendaria a prudência. Ao longo da conversa, oscilou entre o vexame, o desastre e a premonição. Foi vexaminoso ao falar sobre a guerra na Ucrânia. Sobre economia, foi desastroso. Soou premonitório ao desqualificar a ONU, uma organização que o afagaria dias depois.

A certa altura, Lula declarou o seguinte: "A gente não discute política econômica antes de ganhar as eleições. [...] Quem tiver dúvida sobre mim olhe o que aconteceu nesse país quando eu fui presidente da República: o crescimento do mercado. [...] Ao invés de perguntar o que é que eu vou fazer, olhe o que eu fiz." Nesse trecho, a manifestação foi burra, presunçosa e ofensiva.

Foi pouco inteligente porque a história ensina que, numa campanha eleitoral, uma dose de humildade não faz mal a nenhum candidato. Foi presunçoso porque todo mundo percebe que alguma coisa está muito errada quando um ex-presidente diz ter feito tudo sempre certo. Lula ofendeu a inteligência alheia ao imaginar que pode reivindicar a Presidência de um país assolado por grave crise econômica sem dizer ao eleitorado o que pretende fazer com a economia.

Entre os erros econômicos cometidos por Lula no Poder o mais escandaloso foi a derrama de verbas públicas do BNDES na caixa registradora de empresas campeãs nacionais que depois se converteriam em financiadoras da corrupção. O erro mais pernicioso foi a expansão dos gastos públicos no final do segundo mandato, para erguer um palanque vistoso. O mais ruinoso dos erros foi a eleição de Dilma Rousseff.

Sob Dilma, entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. A taxa de desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de trabalhadores. O governo abusou das isenções e subsídios tributários. A despeito disso, os únicos empreendimentos que bombavam no país eram a corrupção e a estagnação.

Sabe-se pouquíssimo do que Lula planeja fazer se for eleito para um terceiro mandato. Ele estimula a crença de que haverá probidade e prosperidade a partir de 1º de janeiro de 2023. Foi assim, na base da empulhação, que Dilma prevaleceu em 2014. Deu no que está dando.

Ao falar sobre a guerra na Ucrânia, Lula navegou sobre um mar de obviedades para naufragar numa temeridade. Agarrado ao óbvio, o entrevistado flutuou ao mencionar a precariedade do populista Zelenski. Continuou flutuando ao criticar a imprudência dos Estados Unidos e da União Europeia por cutucar Putin com a OTAN para ver se ele mordia.

Lula afundou no instante em que declarou que o presidente ucraniano "quis a guerra". Foi categórico: "Esse cara é tão responsável quanto o Putin." Nesse ponto, a condenação retórica de Lula à invasão da Ucrânia ficou muito parecida com a de Bolsonaro. Se dissesse que é "solidário" com a Rússia, ficaria idêntico.

A caminho do fundo, Lula ainda teve tempo de desqualificar a ONU. A pretexto de defender a criação de um novo modelo de "governança mundial", o candidato petista afirmou que a ONU de hoje não representa mais nada". Outra obviedade. Que, no seu caso, acabou soando também como uma declaração premonitória.

Lula falou à Time no final de março. Na semana passada, o Comitê de Direitos Humanos da ONU, essa organização "que não representa mais nada", deu uma paulada em Sergio Moro. Com seis anos de atraso, concluiu que o morubixaba do PT teve seus direitos políticos supostamente violados pela Lava Jato.

Quem lê a entrevista de Lula é assaltado por uma dúvida. É difícil saber se o entrevistado faz campanha para si mesmo ou se virou um cabo eleitoral de Bolsonaro. Julgando-se invulnerável, Lula escalou o salto agulha como se desejasse ficar mais perto de Deus. De março até hoje, encurtou-se a distância que o separa de Bolsonaro. Ou Lula se convence de que também está sujeito à condição humana, passando a medir as palavras, ou logo estará bem mais próximo do fiasco.