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Josias de Souza

Policiais, cuidado, vocês estão sendo filmados!

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/05/2022 18h38

As cenas são fortes, degradantes e incontroversas. Exibem uma filmagem feita no município de Umbaúba, no litoral de Sergipe. No vídeo, agentes da Polícia Rodoviária Federal abordam um homem negro ao lado de uma moto. Um dos policiais ordena ao alvo da batida que leve as mãos à cabeça. Faz isso aos berros, num linguajar apinhado de palavrões. É atendido. Um segundo agente submete o homem a uma revista. Desarmado, o revistado recebe jatos de spray de pimenta na face. Ouve a ordem para que se deite no chão. É empurrado e imobilizado.

Sob os olhares de curiosos e de um terceiro colega, os agentes enfiam o sujeito no porta-malas de uma viatura policial. Tentam fechar o compartimento com as pernas do preso do lado de fora. Lançam dentro do compartimento traseiro do automóvel bombas de gás. Emanações do produto escapam pelas frestas do veículo, formando uma nuvem de fumaça. O desfecho dessa abordagem policial convertida em sessão de tortura foi a morte de um brasileiro pobre, de 38 anos, chamado Genivaldo de Jesus Santos.

Os agentes que abordaram Genivaldo aparecem na filmagem com os rostos encobertos por capacetes. Anotaram no boletim de ocorrência que a morte não teve relação com a abordagem. Nessa versão, Genivaldo teria cometido os "delitos de desobediência e resistência", obrigando os agentes a empregar "legitimamente o uso diferenciado da força". O preso insubordinado teria sofrido um mal súbito quando era conduzido à delegacia. Levado ao hospital, morreu antes que pudesse ser socorrido. Uma "fatalidade".

Ecoando os seus representantes, a Polícia Rodoviária Federal afirmou em nota que os agentes usaram "instrumentos de menor potencial ofensivo" para deter um homem, que teria "resistido ativamente" a uma abordagem. Por mal dos pecados, uma testemunha da cena filmou tudo com a câmara de um celular, arma de grande potencial ofensivo quando usada para registra a violência policial.

As práticas da polícia e a vida dos brasileiros pobres podem melhorar muito quando esse tipo de vídeo, além de viralizar na internet, resultar em punições. Laudo do IML afirma que Genivaldo morreu por insuficiência respiratória aguda provocada por asfixia mecânica. Os agentes da Polícia Rodoviária representavam o Estado brasileiro na rodovia da cidade sergipana. O episódio, agora sob investigação, exige consequências.