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OPINIÃO

Deus e o diabo na terra dos pastores do capitão

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Josias de Souza

Colunista do UOL

25/06/2022 10h35

Quando o pastor Milton Ribeiro disse para sua filha, resignado, "Deus vai cuidar", segundo diálogos captados em grampo legal, não suspeitava que, embora Ele esteja em toda parte, o demônio ainda controla o imponderável e alguns setores da Polícia Federal. "O presidente me ligou, ele tá com um pressentimento...", contou o pastor à filha. Pressentir é sentir antecipadamente a ocorrência de um fato futuro. Que antevisão teria tido Bolsonaro? "Eles podem querer atingi-lo através de mim... É que eu tenho mandado versículos pra ele, né?" A filha do pastor, voz angelical, estranhou: "Ahhhh... Ele quer que você pare de mandar mensagens?"

A moça soou como se já tivesse ciência do teor dos "versículos" que seu pai despejava dentro do WhatsApp de Bolsonaro. Milton não precisou explicar que raios de versos bíblicos eram aqueles. Ele apenas atalhou a filha: "Não! Não é isso..." O problema não estava no envio de trechos do novíssimo Testamento que inspira a relação do ex-ministro com o ex-chefe. A questão era que Bolsonaro pressentira que o sacrossanto relacionamento estava prestes a ser devassado: "Ele acha que vão fazer uma busca e apreensão... Em casa... Sabe?"

Por alguma misteriosa razão, a filha de Milton Ribeiro sentiu a necessidade de dar um aviso: "Eu tô te ligando de um celular normal viu, pai?" Era como se a moça, contagiada pelos pressentimentos de Bolsonaro, intuísse que a polícia poderia estar na escuta. O pai, também infectado pelo vírus da premonição, compreendeu rapidamente os temores da filha: "Ah é? Ah, então... Depois a gente fala, então, tá?"

Jacaré não é tronco

Foi nesse ponto que o pastor se apegou à fé como náufrago que agarra o jacaré imaginando que é um tronco. "Deus vai cuidar", declarou, antes de mudar o rumo da prosa. Era 9 de junho quando Bolsonaro disparou o telefonema que Milton Ribeiro relatava para a filha. O presidente se encontrava nos Estados Unidos. Participava, a convite de Joe Biden, da Cúpula das Américas. Integrava a comitiva presidencial o ministro da Justiça, Anderson Torres.

O Tinhoso estava no comando. Com os instintos premonitórios aguçados pela companhia do chefe da pasta da Justiça, superior hierárquico da Polícia Federal, Bolsonaro foi tomado de assalto (ops!) por um desejo irrefreável de conversar com o pastor Milton. Repetindo: Bolsonaro acabara de realizar uma viagem transoceânica. Sua agenda incluía um encontro com Biden, o presidente da nação mais poderosa do Planeta. Mas o capitão decidiu desperdiçar um naco do seu tempo para avisar ao ex-ministro que ele deveria se preparar para a visita da polícia. Treze dias depois, o presságio do presidente se materializaria na porta do apartamento do ex-ministro da Educação, na cidade de Santos.

Os rapazes da Polícia Federal exibiram para Milton Ribeiro dois mandados judiciais. Um de busca e apreensão, outro de prisão. Depois de varejar gavetas e armários, os agentes federais levaram preso o ex-ministro. A prisão foi relaxada no dia seguinte. Perdeu-se algo essencial numa operação policial: o fator surpresa. "No fundo, ele não queria acreditar, mas ele tava sabendo", declarou Myrian Ribeiro, mulher do pastor, noutro diálogo captado pelos grampos da PF. "Pra ter rumores do alto, a coisa... É porque o negócio já tava certo."

"Organização criminosa"

Outros membros do grupo que a PF classificou como "organização criminosa" foram submetidos, em outras praças, ao mesmo ritual litúrgico. Foram à garra, por exemplo, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, corretores de verbas do MEC junto a prefeituras. Milton, Gilmar e Arilton são exemplos acabados de uma mutação genética do espécime chamado "pastor bolsonarista".

Milton é pastor da Igreja Presbiteriana. Tem a admiração da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ascendeu ao MEC por indicação do ministro "terrivelmente evangélico" do Supremo André Mendonça, outro pastor presbiteriano. Gilmar achegou-se a Bolsonaro como presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil e chefe do Instituto Teológico Cristo para Todos. A credencial de Arilton era de assessor de assuntos políticos da Convenção Nacional das Igrejas.

Suponha-se que os três tenham sido devotados servos de Deus. É o que de melhor se pode fazer por eles. Quando se deu a mutação de pastores para alvos de batidas policiais? Infelizmente, o fenômeno da involução moral é infenso a respostas com precisão científica. Poder e dinheiro, naturalmente, contam. Mas como identificar o momento exato em que as portas da tentação se abriram?

"Pedido especial" de Bolsonaro

Para efeito da investigação em curso, a coisa desandou quando a conversão ao bolsonarismo e o culto ao "mito" viraram a cabeça dos pastores e as maçanetas dos gabinetes do Planalto e da Esplanada. Os grampos da PF foram precedidos de gravação na qual a língua de Milton Ribeiro, num movimento diabolicamente celestial, admitiu que os cofres do MEC foram destravados para os pastores graças a "um pedido especial" de Bolsonaro. Para desassossego do presidente, a língua do ex-ministro revelou-se uma venenosa produtora de incontinências verbais.

Primeiro, ela, a língua, colocou Bolsonaro na posição de patrono de traficantes de verbas para a construção e aparelhamento de creches e escolas. Agora, a língua exibiu-se para os grampos da PF. Os investigadores constataram que a "organização criminosa" dispunha de linhas telefônicas desconhecidas da polícia. Mas a língua traiu o dono nas conversas com "celulares normais".

Na primeira hora do escândalo, há três meses, Bolsonaro disse que levaria sua cara de pau ao fogo por Milton Ribeiro. Não se deu conta do alto teor de combustão do óleo de peroba. Jogando lenha na fogueira, prefeitos achacados contaram que os pastores do MEC cobravam um pixuleco que variava de R$ 15 mil a R$ 40 mil para franquear o acesso às arcas bilionárias do Fundo Nacional de Desenvolvimento e Educação, o FNDE.

Ouro e bíblias

Num dos achaques, o irmão Arilton rogou que a propina fosse liquidada em ouro, Noutro, pediu que lhe comprassem mil Bíblias superfaturadas. Numa fase em que ainda era socorrido pelo benefício da dúvida, o então ministro Milton Ribeiro justificou-se alegando que já havia encaminhado as denúncias à Controladoria-Geral da União. Verdade. O diabo é que Milton não retirou os pastores de sua agenda. E as verbas do FNDE, convenientemente geridas pelo centrão, continuaram saindo pelo ladrão.

Na origem, o inquérito sobre o escândalo do MEC começou a tramitar no Supremo Tribunal Federal. Mas Bolsonaro, com as bochechas carbonizadas, viu-se compelido a estimular o pedido de demissão de Milton Ribeiro. Sem mandato, o pastor virou matéria-prima para a primeira instância. O envolvimento de Bolsonaro manteria o caso na Corte Suprema. Entretanto, o departamento de blindagem da Procuradoria-Geral da República sustentou que não havia o que investigar em relação a Bolsonaro. O caso desceu, então, para o primeiro grau. Deu no que está dando.

Bolsonaro agora diz que leva ao fogo por Milton apenas a mão, não a cara. Demora a perceber que entrou processo de autocombustão. Vangloria-se da independência da sua Polícia Federal. É desmentido pelo delegado que cuida do caso do MEC. "Houve interferência", escreveu Bruno Calandrini em carta aos colegas. Segundo o delegado, o ex-ministro "foi tratado com honrarias não existentes na lei". Ele lamentou a perda da "autonomia investigativa para conduzir o inquérito com independência e segurança institucional."

Antro de Perver$ão

A pedido do Ministério Público, o caso subiu novamente para o Supremo, agora puxado pela suspeita de que o "pressentimento" de Bolsonaro é um eufemismo para um outro crime: obstrução de Justiça. O silêncio dos bumbos do centrão indica que os pastores não estão sozinhos. O escândalo do MEC, apenas o mais recente de uma série, expõe outros personagens.

O espécime "pastor bolsonarista", em simbiose com uma fauna aliada que —manjada desde a chegada das caravelas— dispensa mutações, faz do governo "sem nenhum caso de corrupção" um antro de perver$ão. Sob Bolsonaro, não há inocentes. Há apenas suspeitos, investigados, denunciados e cúmplices. O FNDE, o cofre de onde saíram as verbas traficadas pelos pastores, encontra-se sob os republicanos cuidados de prepostos de Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto.

A corrupção tornou-se parte do sistema do presidente "antissistêmico". O bolsonarismo está tonto. Antes, guerreava para retirar Bolsonaro da encrenca, empurrando Milton Ribeiro e Cia. para a primeira instância. Agora, questiona a legitimidade do inquérito que instalou grampos na língua dos pastores.

"Vou destruir todo mundo"

Com a experiência de quem matou as provas de sua rachadinha nos tribunais superiores, Flávio Bolsonaro rosnou nas redes sociais: "Então havia gravação do ex-ministro falando que 'ele' achava que poderia ter busca e apreensão? Se 'ele' era Bolsonaro, porque o juiz e o procurador do Ministério Público Federal não remeteram os autos ao Supremo Tribunal Federal ao invés de prender o ex-ministro. Tá cheirando a 'sacanagem', além de crime, claro". O primogênito parece carregar no DNA o talento do pai para a premonição.

No primeiro ano de governo, numa crise em que levou à frigideira o então chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni, Bolsonaro disse que enxergava os seus ministros como fusíveis. Eles existem como dispositivos de proteção. Queimam para evitar que o presidente e o sistema entrem em curto-circuito. O problema de um presidente que fabrica crises é a quantidade de fios desencapados que ficam pelo caminho.

No dia em que a "organização criminosa" do MEC foi em cana, o pastor Arilton Moura telefonou para um assessor. Escutado pela PF, ele soou assim: "Preciso que você ligue para minha esposa... Porque se der qualquer problema com a minha menininha, eu vou destruir todo mundo!"

Todos os cristãos genuínos devem orar para que o irmão Arilton leve às últimas consequências o seu plano de Apocalipse. A essa altura, uma nova operação abafa, com a condescendência do Supremo, autorizaria os contribuintes em dia com o fisco a ecoar Flávio Bolsonaro: "Tá cheirando a 'sacanagem'."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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