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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se CPI do MEC naufragar será por falta de vergonha, não de matéria-prima

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/06/2022 09h59

O esforço do Planalto para enterrar no Senado a CPI do MEC cresce na proporção direta do aumento do volume de malfeitos a serem perscrutados. Até o primogênito Flávio Bolsonaro envolveu-se na articulação para retirar assinaturas do pedido de CPI, inviabilizando sua instalação. Se algum dos 28 signatários do requerimento mandar apagar o jamegão será por falta de vergonha na cara, não por escassez de matéria-prima.

Durou muito pouco o discurso de Bolsonaro segundo o qual o pastor Milton Ribeiro está limpo no escândalo do Ministério da Educação porque partiu dele a iniciativa de colocar a Controladoria-Geral da União, a CGU, no encalço dos pastores lobistas Gilmar Santos e Arilton Moura. Milton frequenta as páginas de relatório da CGU não como um fator de moralização, mas com uma aparência de cúmplice da avacalhação produzida pelos "irmãos" Gilmar e Arilton.

Numa primeira apuração, aberta em agosto do ano passado e encerrada em seis meses, a CGU concluiu que não havia irregularidade cometida por agentes públicos. Apenas vinte dias depois, empurrada por denúncias que saltavam do noticiário como pulgas do dorso de cães sarnentos, a controladoria abriu nova investigação. Dessa vez, recolheu em depoimentos de servidores do próprio MEC indícios de que Milton Ribeiro facilitou o funcionamento do balcão.

Mesmo alertado sobre a movimentação tóxica dos pastores que cobravam propinas de prefeitos, o então ministro continuou se relacionando com Gilmar e Arilton como se nada tivesse sido descoberto sobre eles. Reunia-se com eles inclusive em sua casa. Ofereceu cargo de confiança a um dos pastores, Arilton. Que recusou por achar o salário baixo. Preferiu indicar um preposto.

A CGU forneceu os indícios que a Polícia Federal aproveitou em seu inquérito. Há nos autos do processo um par de gravações que implicam Bolsonaro. Por isso o caso subiu novamente para o Supremo Tribunal Federal. No alvorecer do escândalo, a voz de Milton Ribeiro soara numa gravação afirmando que os pastores que agiam como corretores de verbas entraram no MEC graças a um "pedido especial" de Bolsonaro.

Agora, encontra-se na vitrine o grampo legal no qual Milton conta para sua filha que Bolsonaro lhe telefonou para avisar que tivera o "pressentimento". O capitão antevira com 13 dias de antecedência uma batida de busca e apreensão que os rapazes da PF realizariam no apartamento do ex-ministro, em Santos.

A chance de uma CPI resultar em punição é inexistente, pois as conclusões de uma eventual investigação parlamentar serão enviadas ao Procurador-Geral Augusto Aras, chefe do DBB, departamento de blindagem do Bolsonaro. Mas o risco de prejuízo político a três meses da eleição não é negligenciável.