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Josmar Jozino

Irmãos mafiosos da Camorra presos em SP ensinaram o PCC a virar empresa

Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

16/12/2021 04h00

Em 8 de fevereiro de 1983, no rigoroso inverno europeu, o empresário italiano Presta Luigi, dono de joalheria famosa, foi sequestrado em Nápoles por sete pessoas armadas. Algumas usavam máscaras. A quadrilha exigiu 1 bilhão e 700 milhões de liras, a moeda da época, para libertá-lo.

O resgate foi pago após intensas negociações. Os sequestradores fizeram várias ligações para a mulher de Luigi e insistiram em receber 10 bilhões de liras. Mas aceitaram reduzir o valor. A vítima foi solta em 14 de março daquele ano em San Nicola Arcella, província de Cosenza, na Calábria.

Três irmãos da Camorra lideraram o sequestro e fugiram para o Brasil em maio de 1983. Dois deles, Renato e Bruno Torsi foram capturados em São Paulo. Dez anos depois ficaram presos lado a lado com fundadores do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Ambos foram mandados para a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba, berço do PCC, criado naquela unidade em 31 de agosto de 1993. Os dois camorristas tiveram participação decisiva na organização e estruturação da maior facção criminosa do Brasil.

fachada - André Nieto/Folhapress - André Nieto/Folhapress
23.ago.2018 - Fachada da Casa de Custódia de Taubaté (SP), em dezembro de 2000
Imagem: André Nieto/Folhapress

Na Itália, enquanto os três irmãos permaneciam em local ignorado, a polícia napolitana interceptava telefonemas do bando. Dois dias antes da libertação de Luigi, o sequestrador Renato Cinquegranella foi identificado. Ele pilotava uma moto Honda na via Giacinto Gigante, em Nápoles, quando foi perseguido por policiais rodoviários. Acabou preso perto do Parque Manelli.

Outros integrantes da quadrilha também foram presos. Segundo as autoridades italianas, os detidos foram interrogados e revelaram que o sequestro foi planejado, organizado e executado por Francesco, Renato e Bruno Torsi. Os três eram chamados de "Irmãos Metralha".

O trio integrava a célula "Nova Famiglia", o braço da Camorra especializado em sequestros. As provas contra eles eram robustas: telefonemas monitorados; reconhecimento fotográfico; digitais em armas e cédulas de 100 mil liras do resgate marcadas pela polícia e apreendidas.

A relação entre os mafiosos italianos e o PCC foi revelada por este colunista em reportagens publicadas no extinto Jornal da Tarde, veja os links abaixo para acessar as reportagens:

https://download.uol.com.br/files/2021/12/1419172287_pcc-camorra-1-282-29.pdf

https://download.uol.com.br/files/2021/12/382357426_pcc-3Dcamorra-2-281-29.pdf

Fuga para o Brasil

Policiais italianos apuraram que os "Irmãos Metralha" haviam fugido para o Brasil após a prisão de um dos comparsas delatores, em 5 de maio de 1983. Os detidos do bando foram acusados por mafiosos de violar o dever fundamental de todo associado camorrista: quebraram o silêncio.

Escondidos no Brasil, os Torsi fizeram dezenas de ligações aos comparsas em Nápoles. Os telefonemas foram interceptados em junho e outubro de 1983. Em uma das ligações, um parceiro de Francesco diz que após a fuga deles pararam os sequestros e a venda de heroína na Itália.

Francesco, Renato e Bruno eram apontados como os chefes e cérebros do núcleo central da célula de sequestradores da Camorra. Eles voltaram para Nápoles no período de outubro e novembro de 1983. Sabe-se que Francesco foi cercado por policiais e se matou para não ser preso.

Renato Torsi, nascido em Nápoles em 9 de novembro de 1958, e o irmão Bruno, também napolitano, nascido em 18 de dezembro de 1959, fugiram mais uma vez para a América do Sul. Foram para Caracas, na Venezuela, e de lá seguiram para o Brasil.

pcc - Reprodução / MOV - Reprodução / MOV
PCC sofreu influência de mafiosos da Camorra
Imagem: Reprodução / MOV

Presos nos Jardins

Agora eram dois os "Irmãos Metralha" em terras brasileiras. Eles ficaram escondidos em Santos, litoral de São Paulo, onde toneladas de cocaína são enviadas por ano, via porto, para a Europa, inclusive para a Itália. Na cidade santista, Renato e Bruno se passavam por empresários do ramo imobiliário.

Os nomes de Bruno e Renato foram incluídos na difusão vermelha da Interpol (Polícia Internacional). Em 18 de maio de 1990, a vida clandestina deles teve um fim. Foram presos pela Polícia Federal no apart-hotel Portinari, na Rua Bela Cintra, 196, nos Jardins.

Os "Metralha" foram levados para a Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte paulistana, palco do massacre de 111 presos mortos pela Polícia Militar em 2 de outubro de 1992. E foi justamente com uma farda da PM que Bruno fugiu do presídio em 26 de agosto de 1992, dois meses antes da carnificina.

As autoridades carcerárias ficaram com medo de uma possível fuga ou resgate de Renato e o transferiram para a Penitenciária do Estado, também no Complexo do Carandiru. Em 25 de março de 1993, Bruno foi novamente capturado e dessa vez foi removido para a Casa de Custódia de Taubaté.

Já Renato, foi levado da Penitenciária do Estado para a Penitenciária 1 de Presidente Venceslau e depois para a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, onde permaneceu de 20 de agosto de 1993 a 14 de março de 1994.

O grande irmão Mizael

Os camorristas viram de perto o nascimento do PCC em Taubaté. O melhor amigo deles na prisão era Mizael |Aparecido da Silva, o Miza, um dos oito fundadores do Primeiro Comando da Capital e o idealizador do estatuto da facção.

No tempo em que permaneceram juntos na prisão, os Torsi explicaram a Mizael que uma organização criminosa tem o dever de ajudar as famílias de seus associados e contratar advogados para defender seus integrantes presos e em liberdade.

Os irmãos também orientaram Mizael a cobrar dos faccionados do PCC uma taxa mensal para ajudar a fortalecer o grupo como uma empresa, obtendo lucros, investindo o dinheiro de atividades ilícitas - como sequestros, roubos e tráfico de drogas - e ainda lavando capitais, aos moldes da Camorra.

Mizael e os Torsi se consideravam mais do que amigos. Na Itália, o Tribunal de Nápoles havia condenado os camorristas a 28 anos de prisão pelo sequestro do joalheiro Luigi.

O governo italiano não poupou esforços para ter os Torsi de volta. Nos documentos do processo de extradição, aos quais a coluna teve acesso, o STF (Supremo Tribunal Federal) classificava Renato e Torsi como "alienígenas", quando se referia a ambos.

Cartões postais

O PCC já havia espalhado suas sementes pelas prisões de São Paulo e do Brasil quando os "Metralha" foram mandados de volta para a Itália. O governo brasileiro extraditou Renato em outubro de 1994. Em janeiro de 1995 foi a vez de Bruno.

O destino dos "Metralha" foi a Penitenciária de Rebibbia, em Roma. No cárcere italiano, os Torsi nunca se esqueceram de Mizael. Da prisão, em meados dos anos 1990, eles mandaram para o fundador do PCC cartões postais com fotografias da bela Nápoles.

Na mensagem de um dos cartões, Bruno e Renato davam a entender que haviam trocado correspondências com Mizael. Eles o tratavam como "grande irmão" e amigo.

O texto dizia: "É um grande prazer receber suas notícias. Dê-me sempre suas notícias e o que precisar aqui na Itália e estiver ao nosso alcance é só falar. OK, meu grande brother. Um abraço. Seus amigos Bruno e Renato. Mizael foi assassinado em fevereiro de 2002 na P-2 de Presidente Venceslau.

Nos anos em que Mizael e os Torsi estiveram presos juntos, Renato arrumou uma namorada. Ana era uma moça fina, educada, com curso superior, bonita, magra, de olhos castanhos e cabelos castanhos com corte chanel.

Ela visitava o namorado na prisão e tinha amizades com os líderes do PCC. Quando Renato foi extraditado, Ana viajou para Roma, mas teve uma decepção: Foi proibida de entrar no presídio e retornou frustrada ao Brasil.

As disputas por poder e dinheiro dentro da principal organização criminosa do Brasil são narradas na segunda temporada do documentário do "PCC - Primeiro Cartel da Capital", produzido por MOV, a produtora de documentários do UOL, e o núcleo investigativo do UOL.