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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Presidente da Anvisa age como anti-Queiroga na CPI e discorda de Bolsonaro

11.mai.2021 - Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa - Jefferson Rudy/Agência Senado
11.mai.2021 - Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

11/05/2021 13h10

Em depoimento à CPI da Pandemia, o diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, comportou-se como um anti-Queiroga e confirmou a tentativa de uma reunião oficial no Palácio do Planalto para mudar a bula da cloroquina.

Num tom seguro e calmo, Barra Torres discordou claramente das posições negacionistas do presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia, um contraste com o depoimento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, dado na quinta-feira passada.

Médico e contra-almirante, o diretor-presidente da Anvisa respondeu de forma clara às indagações. Ele foi indicado para presidir a Anvisa por Bolsonaro.

O ministro da Saúde agiu de forma evasiva e mentiu à CPI, afirmando haver debate científico sobre o uso da cloroquina para combater a covid-19. Barra Torres disse que há em curso um estudo no Brasil sobre os efeitos do medicamento em casos leves, mas que os diversos levantamentos científicos feitos no mundo inteiro não recomendam o uso da cloroquina nem da hidroxicloroquina.

Quando o relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), listou atitudes negacionistas de Bolsonaro em relação a vacinas, Barra Torres foi claro: "A conduta do presidente difere da minha nesse sentido". O diretor-presidente da Anvisa afirmou que "a política de vacinação é essencial" e que a forma como Bolsonaro boicotou a imunização "não guarda razoabilidade histórica".

Ao confirmar que houve uma reunião no Palácio do Planalto com ministros de Estado e a médica Nise Yamaguchi na qual havia proposta para mudar a bula da cloroquina, Barra Torres produziu prova da forma irresponsável com que Bolsonaro conduz a resposta à pandemia.

Ficou documentado o aconselhamento paralelo relatado na semana passada pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. A médica Nise Yamaguchi foi apontada por Mandetta e agora por Barra Torres como conselheira do presidente. O diretor-presidente da Anvisa deixou claro que ela queria alterar a bula da cloroquina.

É grave a tentativa de mudar a bula da cloroquina porque o medicamento é ineficaz contra a covid-19 e pode levar à morte uma pessoa que tenha arritmia cardíaca. Barra Torres disse que deu uma resposta negativa à mudança da bula "até de maneira deseducada".

Quando o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) indagou se ele concordava com a afirmação de que "um manda e o outro obedece", numa alusão à forma como o general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, descreveu no ano passado a sua relação com o presidente da República, o diretor-presidente da Anvisa declarou: "De maneira nenhuma. Qualquer ação de saúde tem de ser pautada pela ciência".

Barra Torres afirmou ser "contra qualquer tipo de aglomeração" ao responder se concordava com o evento de Bolsonaro com motoqueiros no último domingo. "É um erro aglomerar", reiterou.

Ele admitiu que errou ao participar de uma aglomeração ao lado de Bolsonaro em março do ano passado. Disse que, se tivesse refletido, teria evitado tal atitude. Indagado se concordava com a tese de imunidade de rebanho, respondeu "não" de pronto. O senador Humberto Costa, do PT de Pernambuco, deu os "parabéns" a Barra Torres pela capacidade de discordar publicamente de Bolsonaro. O petista se disse "satisfeito" com o depoimento.

O diretor-presidente não fugiu de nenhuma pergunta e não hesitou em discordar do negacionismo de Bolsonaro. O depoimento esclareceu aspectos técnicos da negativa da Anvisa para uso da vacina russa Sputnik V. O diretor-presidente, ao contrário de Queiroga, usou o depoimento para dar informações corretas de proteção na pandemia. Incentivou a vacinação e recomendou uso da máscara e distanciamento social.

Por volta das 15h38, o senador Marcos do Val (Podemos-ES) mentiu ao dizer que a ciência não aponta ineficiência e risco da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Segundo o senador, a imprensa faz "discurso mentiroso".

Senadores governistas passaram vergonha durante o depoimento de Barra Torres. Negacionistas, eles não tiveram no diretor-presidente da Anvisa a cumplicidade irresponsável hipotecada pelo ministro Marcelo Queiroga na semana passada.

Em resumo, o depoimento foi bom para a CPI, para a opinião pública e para o próprio Barra Torres. A fala do diretor-presidente da Anvisa deixou Bolsonaro e Queiroga mal na foto por expor o negacionismo do primeiro e a covardia do segundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL