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Leonardo Sakamoto

Silêncio de Bolsonaro e Moro soa como endosso a ataque ao Porta dos Fundos

Porta dos Fundos - Reprodução
Porta dos Fundos Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

27/12/2019 04h36

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O presidente Jair Bolsonaro, conhecido por sua verborragia, manteve um incômodo silêncio, até o momento, sobre o ataque à sede da produtora do Porta dos Fundos, no dia 24 de dezembro. A tentativa de incendiar o local ocorreu após ameaças por conta de seu especial de Natal - um programa de humor sobre o aniversário de Jesus.

Da mesma forma, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, não se manifestou a respeito do caso - apesar do ataque representar uma afronta ao Estado de direito e à liberdade de expressão. Preferiu apoiar o indulto de Natal a policiais, defender sua visão do pacote anticrime, fazer propaganda pessoal e posar ao lado de uma estátua de Winston Churchil nas redes sociais.

Em um contexto de intolerância deflagrada, o silêncio da principal autoridade do país e de seu auxiliar para questões de direitos fundamentais, após um ataque terrorista, soa como anuência. Pior, como endosso. Esse silêncio se espalha como um vírus, infeccionando a democracia e oferecendo a fundamentalistas religiosos, fanáticos políticos, racistas, fascistas, incels, milicianos ou imbecis mal-intencionados a certeza da impunidade para que imponham mais medo.

Bolsonaro não precisa concordar com o Porta dos Fundos, mas proteger a democracia. O problema é a dificuldade em proteger algo do qual entende-se muito pouco.

Na história do país, o ódio sempre se manifestou de forma estruturada e articulada contra negros, indígenas, população LGBTQI+, pessoas em situação de rua, migrantes pobres, entre outros. Contra eles, o Brasil vem cometendo terrorismo de Estado há tanto tempo que se tornou parte das nossas fundações, um crime coletivo que, tristemente, vem nos definindo como sociedade. Afinal, não é só o silêncio de Bolsonaro e Moro que incomodam.

Agora essa violência volta à classe média urbana e a seus formadores de opinião e intelectuais, seguindo os passos da última ditadura militar. O ódio não foi criado agora, mas atinge um novo patamar. Qual será o próximo alvo? Bombas em redações de jornais? Atiradores em universidades? Com a política de armas do presidente, isso ficou, inclusive, mais fácil.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, alertou-se que o ódio semeado por Bolsonaro iria gerar frutos ao longo de seu mandato. A surpresa é a velocidade com a qual isso está florescendo. Não se imaginou que, logo no início, teríamos ataques terroristas contra programas humorísticos. Isso demonstra a "competência" do presidente, que tem inundado a sociedade com discursos que apoiam guerras políticas e culturais. Melhor seria se fosse competente em acelerar a geração de empregos com carteira assinada, mas isso não parece ser prioridade.

Uma semana antes do segundo turno de 2018, Bolsonaro prometeu "uma limpeza nunca vista na história" após eleito. "Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", afirmou. "Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria."

Em suma, varrer, banir, prender ou exilar adversários. Deixou claro que seu mandato jogaria gasolina no fogo.

Após a execução da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, muitos foram os idiotas que celebraram ou minimizaram o horror de sua morte. O ataque a tiros aos ônibus da caravana que o ex-presidente Lula realizou na região Sul, no mesmo mês, seria rechaçado por todos em qualquer democracia decente - o que não foi o caso por aqui, dada a quantidade de comemorações. A abominável facada sofrida por Bolsonaro foi celebrada por pessoas estúpidas que queriam que Adélio Bispo tivesse terminado o serviço. O músico Moa do Catendê, eleitor de Fernando Haddad, foi morto a faca por um eleitor de Bolsonaro, em Salvador, para júbilo de mentecaptos. Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, disse que foi armado ao Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes e ignorantes o chamaram de herói.

Bolsonaro não demonstrou indignação à altura diante de nada disso, com exceção do seu próprio infortúnio. Pelo contrário, radicalizou e dobrou a aposta ao longo de 2019. E indivíduos e grupos radicais, sentindo-se empoderados pela mudança de governo, foram à forra.

Jovens rapazes de escolas se juntam para dar "corretivos" nas colegas feministas e mostrar quem manda. Fazendeiros se juntam para atacar fiscais e movimentos de sem-terra, indígenas, camponeses ignorando decisões judiciais. Milicianos se juntam em grupos de extermínio para fazer valer a sua ordem, recebendo dinheiro até de gabinetes de políticos. Empresários se juntam para remover a população em situação de rua e os sem-teto de seu entorno, matando, sem pudor, na frente de câmeras de segurança. Grupos homofóbicos se juntam para atacar baladas LGBTQI+ e racistas se juntam para espancar jovens negros, chamando-os de vagabundos apesar de estudarem e trabalharem. Pessoas se juntam para atacar jornalistas que insistem em dizer o contrário do que o grupo de WhatsApp ensinou.

Antes do fim de 2018, ouvíamos de analistas que chamavam de "exagero" a possibilidade de Bolsonaro colocar em prática a parte mais dura de suas promessas. Ironicamente, eram os mesmos que, meses antes, tachavam de "exagero" nossas avaliações de que ele seria o próximo presidente. Antes do início de sua gestão, os mesmos analistas afirmavam com indescritível certeza que ele seria devidamente controlado - seja pelos freios e contrapesos institucionais (quando as instituições já davam provas de que não estavam funcionando perfeitamente), pela força da imprensa e da sociedade civil (quando a imprensa já era chamada constantemente de principal produtora de fake news) e pelo mercado (como se o mercado se preocupasse com qualquer coisa que não ele mesmo). Foi freado em muita mudança que propôs, sim. Mas seu discurso surfou livremente.

Munidos com o ódio que fermentaram ao longo do tempo e com a sensação de estarem fazendo um serviço público endossado pelas autoridades, soldados agem para "dar um jeito na escória". Como sempre digo aqui, não são as mãos dos líderes políticos, sociais, econômicos e comunicadores que atacam, mas é a sobreposição de seus argumentos, a escolha que faz das palavras ao longo do tempo e o exemplo que transmitem que distorcem a visão de mundo de seus seguidores e tornam o ato da violência banal. Suas ações e palavras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois é consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

A liberdade de expressão não aceita censura prévia e prevê a responsabilização judicial posterior. Pois a partir do momento em que o debate é interditado por balas, facadas ou coquetéis-molotov em programas de humor, a sociedade é ferida de morte.

A discussão não é entre direita e esquerda, mas entre civilização e barbárie. E, no silêncio daqueles que podem se opor a isso, a barbárie avança.