PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Leonardo Sakamoto


Plágio de nazismo não é caso isolado: Roberto Alvim é fruto do bolsonarismo

Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 15/01 - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 15/01 Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

17/01/2020 19h36

Logo após a demissão de Roberto Alvim, as redes sociais foram tomadas por uma tentativa de passar pano para o presidente da República e o governo federal, como se o que tivesse acontecido fosse um desvio da curva, por culpa única e exclusiva do, agora, ex-secretário de Cultura. Entretanto, o vídeo gravado por ele não foi um ato isolado, mas a consequência da presença do bolsonarismo no poder, um grupo que normaliza as violências simbólica e física, transformando-as em ferramentas da prática política cotidiana.

Não era portanto um raro fruto podre que manchava a reputação da árvore, mas mais um. Ou seja, já surgiu antes e acontecerá novamente.

A diferença é que, desta vez, a repercussão negativa do discurso que copiou - na forma e no conteúdo - Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, foi tão grande que ganhou proporções internacionais. Afinal, era um dos comandantes do nazismo e do Holocausto. Outros absurdos, como os discursos que fomentam a ação de garimpeiros e madeireiros contra indígenas, ao defenderem a utilização econômica de suas terras, passam sem a devida punição.

Pode-se dizer que Alvim extrapolou desta vez. Mas em matéria de absurdos, não estava só. Acompanhavam-no o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo, a ministra da Mulher da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o ministro da Economia, Paulo Guedes, o ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional, general Augusto Heleno, entre outros.

Todos não apenas sabem que podem pular a cerca da barbárie e dizer grandes absurdos, como têm a sensação de que devem fazer isso se quiserem se manter nas graças do chefe.

Bolsonaro, ele próprio, é responsável por uma penca de frutos podres. Defendeu a tortura como método, sugerindo que ela deveria ser usada contra funcionários públicos; elegeu torturadores como heróis, como no caso do açougueiro Brilhante Ustra; chamou manifestações populares de terroristas, contando com seu filho e com o ministro da Economia para lembrarem que a resposta para isso pode ser um novo AI-5; prometeu "uma limpeza nunca vista na história desse Brasil", dizendo nas eleições que varreria do mapa opositores políticos, banindo-os do país; chamou, de forma preconceituosa, nordestinos de "paraíba"; fez apologia ao trabalho infantil e pouco caso do trabalho escravo; atacou sistematicamente jornalistas, recorrendo a xingamentos ou à difamação online quando a imprensa lhe desagradou; elogiou ditadores e pedófilos, como Pinochet e Stroessner.

Políticos dizem não incitar a violência com suas opiniões. Por vezes, não são eles que atacam, mas é o encadeamento de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna a agressão banal. Ou, melhor dizendo, "necessária'' - para tirar o país do caos e levá-lo à ordem. Acabam por alimentar a intolerância, que depois será consumida por fãs malucos e seguidores inconsequentes que fazem o serviço sujo.

Como já disse aqui, no dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos seus padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas. Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por pensarem diferente da maioria. A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista descrito acima, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Deu no que deu.

Hoje, vemos muitos se acovardarem diante de ondas burras, intolerantes e violentas frente à necessidade de defender a pluralidade do conhecimento, os direitos, a dignidade. Ou acharem que sinais, como o do plágio, são casos isolados.

Não, não estou comparando nossa sociedade, nem nosso governo com o da Alemanha daquela época. Apenas dizendo que quando percebermos que a democracia é algo frágil e que as instituições não eram tão fortes quanto imaginávamos, pode ser tarde demais.

Leonardo Sakamoto