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Leonardo Sakamoto


De "parasita" a "zebra gorda", servidor público é alvo do governo Bolsonaro

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fala durante seminário sobre a MP da Liberdade Econômica - Pedro Ladeira/Folhapress
O ministro da Economia, Paulo Guedes, fala durante seminário sobre a MP da Liberdade Econômica Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

07/02/2020 21h20

O ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou os funcionários públicos de "parasitas" do orçamento nacional, nesta sexta (7), em um evento no Rio de Janeiro.

"O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita", afirmou Guedes, criticando a política de aumentos salariais de servidores.

Diante da repercussão negativa, disse que sua fala foi descontextualizada e que reconhece a qualidade do serviço desses trabalhadores.

Mas a declaração está totalmente dentro do contexto de como o governo Jair Bolsonaro trata os funcionários públicos.

Por exemplo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chamou professores de universidades federais de "zebras gordas", em setembro do ano passado, acusando-os de ganhar altos salários e não trabalhar - o que provocou reações indignadas de docentes em todo o país.

Outro exemplo, Jair Bolsonaro disse, em uma live, em 31 de outubro, que "quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia". Ele se referia a servidores que estariam demorando para conceder licenças a um empreendimento. Disse que não mandava neles, mas se pudesse, "cortaria a cabeça". "Ponta da Praia" se refere à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, que foi usada como centro de interrogatório, tortura e execução durante a ditadura.

Desde antes de assumir a Presidência da República, ele ataca fiscais ambientais, dizendo que atrapalham o progresso e multam por capricho pessoal. Técnicos do Ibama e do ICMBio reclamam que isso colocou em risco suas vidas.

Também fomentou ataques contra auditores fiscais do trabalho. Em agosto, Bolsonaro endossou vídeo com reclamações de um fazendeiro do Ceará que foi multado devido a irregularidades flagradas. Logo depois, comentários com incitação à violência contra os auditores foram postados por seguidores na própria conta do presidente.

"Será que só eu morro de vontade de enterrar um fiscal no meio desse sertão?", afirmou um comentário. "Vontade é de metralhar tudo. São tudo esquerdista essas pragas", disse outro. Isso gerou manifestação de repúdio por parte do sindicato desses trabalhadores, que lembrou que quatro deles foram vítimas de chacina organizada por fazendeiros insatisfeitos durante uma operação de fiscalização no passado.

O governo Bolsonaro tenta aprovar a PEC Emergencial, apresentada em novembro do ano passado, que cria a possibilidade de acionar gatilhos em crises fiscais, reduzindo jornada e remuneração de funcionários públicos e proíbe reajustes e concursos por dois anos. 

Ao generalizar o trabalho de servidores públicos, que cuidam da nossa saúde, de nossa educação, de nossa segurança, de nosso meio ambiente, o ministro abre caminho para que se generalize também o sistema financeiro, onde ele ganhou muito dinheiro, chamando-o de "parasita" e "zebra gorda". O sincericídio pode funcionar com Bolsonaro e Weintraub, que são da ala macarrônica do governo, mas pega mal quando é com o suposto "fiador racional" da administração federal.

Leonardo Sakamoto