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Bolsonaro ignora crise e elege abraço de Drauzio como o problema do Brasil

Jair Bolsonaro - DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Jair Bolsonaro Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/03/2020 22h07

Jair Bolsonaro preferiu atacar o médico Drauzio Varella nas redes sociais ao invés de apresentar um plano para enfrentar a tempestade econômica que vem aí. Até porque seu governo não possui tal plano.

Ao final de um dia de loucura nos mercados globais e de derretimento da Bolsa de Valores brasileira por conta da queda no preço do petróleo, o presidente não acalmou a população. Não discorreu sobre a desvalorização do real frente ao dólar, nem respondeu às preocupações quanto à falta de investimento público (que vêm, inclusive, de membros da equipe econômica), muito menos citou a influência disso na ainda alta taxa de desemprego, que aflige 11,9 milhões de brasileiros. Elegeu um "abraço" como problema da República.

Ele criou uma cortina de fumaça usando um humorista distribuindo bananas a jornalistas, no dia 4 de março, para evitar comentar o pífio crescimento do PIB, de 1,1%, em 2019. Agora, quando começa-se a falar do risco de um crescimento ainda menor, em 2020, devido ao impacto do coronavírus na nossa frágil economia, ele voltou à carga, buscando formas de desviar a atenção da população.

Postagens como essa também servem para excitar seus fiéis seguidores para as manifestações em sua defesa e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, no próximo dia 15. E ele, mais do que nunca, precisa de gente na rua.

Corrupção e emprego são os dois grandes temas com potencial de erodir a pouca confiança que Bolsonaro ainda ostenta. O primeiro vai mal, com laranjas e chocolates. E a economia não só não deslancha, o que tem impacto direto não apenas entre trabalhadores, mas também empresários (fiadores da eleição do presidente), como há um chabú de grandes proporções que se avizinha.

Para completar, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não acredita em investimento público e segue dizendo que a aprovação das reformas resolverá tudo. Até o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que tem sido seu aliado, cobrou medidas de curto prazo. Como já comentei aqui, o presidente sabe que Lula foi reeleito, em 2006, apesar do Mensalão, pois a economia subia em céu de brigadeiro.

Em meio à tosquice, há estratégia. Bolsonaro e amigos têm atuado para desviar a atenção do público quando as notícias são ruins ou nos momentos em que é melhor não tocar no assunto. Do vídeo que chamou ministros do Supremo Tribunal Federal de hienas usado para encobrir áudios vazados do faz-tudo da família Fabrício Queiroz até o "golden shower", que desviou atenção de inquérito por corrupção contra ministro do Turismo, eles têm sido uma fonte inesgotável de fumaça.

Agora, Bolsonaro surfou nas reclamações contra Drauzio Varella e a Globo. Após uma entrevista, o médico e escritor abraçou uma mulher trans que cumpria pena e não recebia visitas há muito tempo. Após circular a informação de que seu crime foi ter estuprado e matado um menino de nove anos, ele passou a ser linchado nas redes sociais. Em resposta, disse que não era juiz, mas médico.

Drauzio atua há décadas atendendo presos - aquela parcela apartada do convívio por ter descumprido o pacto social - que estão pagando o que devem. O doutor não pergunta o que eles fizeram. Não lhe interessa para poder realizar seu trabalho.

Não consigo entender a profundidade da dor de uma família que tem uma criança assassinada de forma violenta e acredito que os responsáveis devam responder à Justiça conforme nossas leis. Por isso, agradeço que existam pessoas como Dráuzio, que por livre e espontânea vontade decidem prestar atendimento físico e emocional aos presos, uma vez que a maioria de nós é incapaz de tal desprendimento. Pela nossa Constituição, a punição a essas pessoas é a prisão e não o afastamento de todo o contato humano, muito menos a pena de morte - no que pese nossos instintos mais primitivos desejarem isso.

Ele não faz isso por acreditar que ganhará a vida eterna como prêmio ou mesmo por vaidade - o doutor vive o cotidiano de penitenciárias muito antes de ser descoberto pela mídia. Faz isso por solidariedade à raça humana.

Diz o Evangelho de Mateus capítulo 25, versículos 34 a 36 - um dos trechos que provam como é revolucionário o Novo Testamento: "Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino que o meu Pai preparou para vocês desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam na sua casa. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na cadeia, e foram me visitar".

Para um pedaço da sociedade, Drauzio tem que ser linchado porque sua existência prova que um ateu consegue colocar em prática a filosofia de doação presente no fundamento do cristianismo, enquanto muitos "cristãos" acham que serão salvos louvando a tortura e a morte.

Para Bolsonaro, contudo, Drauzio tem que ser linchado, em meio à sua guerra cultural, para garantir que a imagem dele sobreviva a mais um dia.

Em tempo: Como uma distração não bastou e como os atos do dia 15 precisam de um empurrãozinho, Bolsonaro afirmou, na noite desta segunda (9), que houve fraude eleitoral e, na verdade, ele havia ganho as eleições de 2018 no primeiro turno. Sem apresentar nenhuma evidência, claro. "Pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno mas, no meu entender, teve fraude", disse Bolsonaro.

Leonardo Sakamoto