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Defesa da cloroquina por Bolsonaro é tática para enfraquecer quarentena

Coveiro em cemitério de Manaus - Reuters
Coveiro em cemitério de Manaus Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

14/05/2020 18h41

Jair Bolsonaro anunciou, nesta quinta (14), que quer a previsão de uso da cloroquina para sintomas leves de covid-19 e não apenas em quadros mais graves. O presidente não tem provas de que isso dará certo, mas lhe sobram convicções. Com a promessa de um remédio mágico e barato, atua para enfraquecer a quarentena. E, ironicamente, copia certos líderes religiosos que levam o crédito pelo árduo trabalho do sistema imunológico de seus fiéis.

"Agora votaram em mim para eu decidir e essa questão da cloroquina passa por mim. Pode mudar e vai mudar", disse o presidente em reunião com grandes empresários. Essa campanha tem sido vista com preocupação na comunidade médica.

"Não temos respaldo científico para indicar cloroquina em tratamentos de pneumonia oriunda da covid-19, nem em quadro leve, nem em quadro grave", afirma André Nathan, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês. "O que se faz é o uso compassionado do remédio, quando a situação é limite e há uma suspeita de que, naquele caso específico, possa ajudar. Ou em estudos científicos que ainda estão sendo realizados para verificar a eficácia. É diferente do uso preconizado, baseado em trabalhos científicos."

E o que temos, até agora, é uma grande maioria de estudos com resultados desfavoráveis à cloroquina. Pesquisas publicadas em periódicos médicos, como o New England Journal of Medicine e o Journal of the American Medical Association, envolvendo milhares de pacientes, não encontraram redução na ocorrência de mortes de quem usou cloroquina, por exemplo.

Um líder religioso cristão, que pediu para não se identificar, disse à coluna que o presidente adota a estratégia de algumas lideranças evangélicas e católicas que prometem a cura para as piores enfermidades a quem obedecer (e contribuir) com a sua igreja. Mesmo que o mérito pela solução dos problemas de saúde dos fieis tenha sido seus próprios corpos, que se curaram sozinhos. Em seu marketing, não foi o organismo funcionando, mas fé.

De acordo com médicos e pesquisadores, a maior parte dos pacientes por covid-19 se recupera por conta própria, sem depender de internação ou fornecimento de oxigênio hospitalar. Distribuindo cloroquina para esse grupo, portanto, o presidente busca levar o crédito pelo que fizeram os glóbulos brancos.

Quem vai acreditar que foram microscópicas estruturas de defesa do corpo, aliadas à descanso, água e boa alimentação? Em seu marketing, não será o organismo funcionando, mas a cloroquina de Bolsonaro - compara a liderança cristã.

Ao afirmar que a insistência de governadores e prefeitos em manter o país em quarentena é inútil e serve apenas para criar desemprego, o presidente vem insistindo que é o uso amplo da cloroquina e o "isolamento vertical" apenas de idosos e pessoas imunodeprimidas é que vão resolver o problema. Há uma relação direta entre a defesa do uso da cloroquina e do fim da quarentena.

Além dos graves efeitos colaterais, André Nathan aponta um problema do uso da cloroquina que vai nesse sentido. "Quando um remédio é apontado como a solução, parte da população relaxa os cuidados preventivos. Nesta pandemia, pode parar de usar a máscara, ignorar a quarentena", explica. A questão é que nada indica que o medicamento salvador seja este.

E se estamos tendo centenas e não milhares de mortes por dia, neste momento da pandemia, é exatamente por conta da adoção de medidas de isolamento social e das ações de cuidados pessoais, com o devido distanciamento social.

Países que seguiram a ciência e respeitaram a medicina, como a Alemanha, de Angela Merkel, e a Nova Zelândia, de Jacinda Ardern, estão bem melhores do que nós. Mesmo a vizinha Argentina, que estava em situação econômica mais delicada que o Brasil, seguiu um caminho rigoroso e está em situação menos tensa. Uma de suas maiores preocupações, aliás, é que o vírus transborde daqui para lá.

O presidente cita que o Conselho Federal de Medicina autorizou o uso da cloroquina. O pneumologista do Sírio-Libanês afirma que essa interpretação é equivocada. "A autorização significa que um médico não será processado se usá-lo em um paciente, não será acusado de cometer má prática médica. O que é bem diferente de indicar o uso, o que depende de estudos científicos", afirma.

Bolsonaro já disse que não entende de saúde pública e de economia. Contudo, aprendeu a não opinar no segundo caso, pois ações de empresas caem na Bolsa de Valores e empresários chiam. Mas como o primeiro caso trata apenas de vidas humanas, talkey.

Leonardo Sakamoto