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Covid: Bolsonaro submergiu, mas seu negacionismo continua matando

Além do presidente Bolsonaro, o juiz também obrigou que a União exija o uso de máscaras dos seus colaboradores e servidores                              - SERGIO LIMA/AFP
Além do presidente Bolsonaro, o juiz também obrigou que a União exija o uso de máscaras dos seus colaboradores e servidores Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/07/2020 18h57

O presidente da República submergiu no momento em que o inquérito das fake news, tocado pelo Supremo Tribunal Federal, atingiu seus aliados e quando o faz-tudo da família, Fabrício Queiroz, foi passar uma temporada em Bangu em meio à investigação de desvio de recursos públicos. Investigação que envolve seu primogênito, o senador Flávio Bolsonaro.

Enquanto isso, chegamos à marca de 61.990 mortes por covid e mais de 1,5 milhão de casos, de acordo com dados organizados pelo consórcio dos veículos de imprensa divulgados nesta quinta (3). Foram 1.277 óbitos registrados de ontem para hoje. Ele desapareceu, mas os efeitos do seu negacionismo sanitário e da falta de coordenação de ações do país na crise, não.

Não é porque o presidente não está mais afagando AI-5ers em atos antidemocráticos aos domingos que tudo está bem. A política para a pandemia que continua valendo (se é que podemos chamar isso de política) é a) defender o retorno imediato da vida à normalidade mesmo com o vírus correndo à solta; b) entupir a sociedade com cloroquina, apesar de não haver provas de que o remédio funcione contra a doença; c) afastar a responsabilidade por mortes e desemprego, jogando tudo no colo de prefeitos e governadores.

Não há muita diferença entre declarações de Jair Bolsonaro como "vamos enfrentar o vírus com a realidade, é a vida, todos nós iremos morrer um dia" ou "a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo" e o comentário feito, nesta quarta (1), pelo prefeito de Itabuna (BA). Fernando Gomes (PTC) disse que vai reabrir o comércio da cidade, a partir de 9 de julho, "morra quem morrer". O que mostra que essa política não apenas está firme e forte, como chegou à base e é replicada.

A extensão do auxílio emergencial por apenas mais dois meses também faz parte do processo. Ao final da transferência das parcelas de R$ 600, a pandemia não estará controlada em várias partes do país - e a falta do cobertor (que já é curto) vai empurrar pessoas de volta às ruas. Isso sem considerar que haverá um corte nos recursos aos trabalhadores no momento em que a economia mais precisará de fomento ao consumo.

Após apontar seus canhões e os de sua militância para magistrados, promotores e procuradores, parlamentares, jornalistas, ativistas da sociedade civil, professores, estudantes, intelectuais, sindicalistas, entre tantos outros grupos, Bolsonaro submergiu. Isso não foi fruto de uma reflexão pessoal sobre o mal que estava causando ao país, mas um recuo tático.

Com base na premissa do, agora icônico, "foda-se" que o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, sugeriu que o presidente mandasse ao Congresso, engrossaram-se atos em apoio ao governo. Manifestações pediram um grande e sonoro "foda-se" aos direitos e liberdades individuais. Em entrevistas, participantes bradaram que eram eles que representavam a democracia.

Contraditório? Só se você é do tipo inocente que acha que as pessoas compartilham fake news contra adversários porque não sabem que elas dizem mentiras. Há um naco radical do bolsonarismo que acredita que é democrática a sua defesa pela liberdade de cassar liberdades.

Com a ajuda dos seus, o presidente tentou emparedar o Congresso e o Supremo. Da mesma forma que, desde o início de seu mandato, foi erodindo as instituições de monitoramento e controle, como o Coaf, a Receita Federal, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Ibama, a Funai, o Incra, o ICMBio. Resolveu a questão do Congresso comprando uma parte dos parlamentares com cargos. Diante da resistência do STF em se dobrar, houve até milícia de extrema-direita com tochas ameaçando ministros na frente da sede do tribunal e lançamento de rojões contra o prédio.

Muitos já propõem que o Judiciário passe um pano nele em nome da "estabilidade", da "governabilidade" e do andamento das "reformas".

Dizer que Jair mudou e quer, a partir de agora, uma relação pacificada com outros poderes é fé demais na conversão do presidente ao comportamento republicano.

Até porque o silêncio do presidente é barulhento. O Brasil grita ao mundo ao ser o segundo país em número de infectados e de mortos por covid-19. E não precisaria ter sido assim se houvesse planejamento, se houvesse liderança.

Ele colocou o barco no rumo das pedras e refugiou-se diante de sua crise pessoal. Os passageiros do barco? Quem não tiver sobrenome Bolsonaro, que lute pela própria vida.

Leonardo Sakamoto