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"Perdi minha avó para a covid-19. No dia seguinte, perdi meu pai também"

Mércia Aliberti Castelli, 79, e Francisco Aparecido Castelli, 62 anos, vítimas de covid-19 - Arquivo pessoal
Mércia Aliberti Castelli, 79, e Francisco Aparecido Castelli, 62 anos, vítimas de covid-19 Imagem: Arquivo pessoal
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/07/2020 16h00

Por Thiago Castelli*, especial para a coluna

Perdi minha avó para a covid-19. No dia seguinte, perdi meu pai também.

Escrever essas duas informações direto e reto não é uma estratégia para causar espanto ou fazer drama. Longe disso. O desenrolar dos fatos "foi muito estúpido", como disse minha mãe. Por isso, a objetividade é a única forma possível de processar e contar esses fatos que avassalaram, de uma hora para a outra, a nossa família. A covid-19 entrou na nossa história sem rodeio, sem aviso prévio. E saiu da mesma forma; levando num sopro nossos entes, não deixando tempo para muitas indagações e julgamentos. Foi um atropelamento emocional e psicológico para todos nós.

Mãe e filho passaram os últimos dias inconscientes, lado a lado, na UTI do Hospital Geral de Vila Penteado, no subúrbio Noroeste de São Paulo. Parece artifício cinematográfico, mas foi simplesmente a vida. A longa e forte ligação que sempre tiveram perdurou até o momento derradeiro. Como explicar? Só sei que foi assim.

As vítimas de covid-19 não são números, são gente da gente. Nesse caso, Francisco Aparecido Castelli, 62 anos, e Mércia Aliberti Castelli, 79. Meu pai era dono de bar de bairro há 39 anos e minha avó, servidora pública aposentada. Ambos estavam em quarentena; ele fazendo caminhadas na laje de casa, ela cozinhando e recebendo videochamadas da família.

Os dois estavam animados porque veriam, em breve, o nascimento de minha filha. Um motivo para comemorar nesse ano maluco. Numa manhã, ele me escreveu pedindo que eu ainda não pintasse o quarto da Luana, pois ele faria isso. Poucos dias depois, estava sendo retirado às pressas de casa e sendo levado de ambulância para o hospital, sempre amparado e cuidado pela minha mãe, irmã e cunhado. Minha avó deu entrada no mesmo local dois dias antes, com problemas respiratórios.

Eu moro em Campinas, a 90 km da casa de meus pais. A notícia das internações me tirou do prumo. E a distância fermentava o sentimento de impotência: "É meu dever ir até lá. Mas você pode se contaminar! Mas é meu pai, oras. A sua esposa está grávida. Mas a família precisa de apoio. Se for, você precisará ficar em quarentena, sem voltar para casa..." Aquela semana de internação pode ser resumida em dias de angústia por eles e pelos demais parentes. Diariamente, a família esperava pelo telefonema do hospital às 18h para atualização do quadro clínico. Em alguns dias, não tivemos contato.

Enquanto a nossa vigília se aprofundava, assistia na televisão o presidente da República comer cachorro-quente nas ruas de Brasília, causando propositadamente aglomeração e confusão. Do lado de cá, víamos o martírio das equipes médicas na luta pelos nossos parentes e por tantos outros. A vida real se desenrolando aos nossos olhos nua e crua, enquanto uma liderança teatralizava bizarramente uma situação de normalidade no país. A minha dor era duplicada por essa postura cínica de menosprezo pela vida.

A família não teve como se preparar. Subitamente, compramos dois jazigos, esperando pelo pior. Foram dois enterros num final de semana, seguindo os protocolos de segurança sanitária. Ou seja, sem velório, pouquíssimas pessoas e sem cerimônia. Com isso, parece que morreram duas vezes. Eu, minhas irmãs e minha mãe fizemos uma "teleconferência de luto", para relembrar, trocar reflexões e sentir a energia um do outro. Nesse ínterim, uma tia, irmã do meu pai, também foi diagnosticada com covid-19. Felizmente, ela está conosco.

Não tivemos tempo para entender como tudo aconteceu. Houve apenas um breve encontro entre todos eles, para entregar medicamentos ao meu pai. De onde veio? Para onde foi? Para nós, isso o tempo está levando dia após dia. Os questionamentos poderiam nos empurrar à depressão sem volta, a buscar respostas e julgamentos inócuos, no caminho do sofrimento cego. Sobraram as saudades e a gratidão por tudo o que vivemos juntos, especialmente nos alegres almoços de domingo.

De certeza, ficou a confirmação que não se trata de "gripezinha" coisa nenhuma. Cuidados redobrados, por favor. No dia a dia, revivo a dor ao ver o comportamento de quem não acredita na pandemia, não se previne ou deixa de usar máscara de proteção.

Ficou também que o quarto da minha filha não será pintado tão cedo. Já que meu pai não o pôde fazer, que assim seja. Essa ausência estará nas paredes, me lembrando do amor que ele já sentia por aquela que dará novo rumo à família. Não custa dizer que ele cunhou que seria uma menina quando minha esposa e eu contamos a notícia da gravidez.

Falar sobre a morte e viver a dor do luto de frente é cuidar da nossa saúde mental, é uma dolorosa forma de buscar a paz em meio ao caos. Não é simples, não tem prazo. Fico me perguntando como estão passando todas essas famílias, que como a minha, foram atravessadas pela morte, trocando a vigília pelo luto em isolamento social. Na noite anterior, acordei de madrugada com meu pai chamando o meu nome, com uma voz serena. Despertei atônito. Hoje, recebi o convite para esse testemunho. Aceitei e agradeço este espaço, assim não guardo fantasmas, mas expresso publicamente e para mim mesmo: perdi, mas o amor sobrevive.

Agradeço imensamente às minhas tias, mãe, irmãs e cunhado que devotaram tanto amor e cuidado nessa reta final. Saíram maior do que entraram, e seguem como exemplo de luz. Por fim, quero expressar a gratidão pelo compromisso da equipe do SUS, no Hospital Geral Vila Penteado, que trabalharam dia e noite pela vida dos meus entes queridos. Minha avó e meu pai receberam tratamento e cuidados dignos.

Pena saber que a postura séria da equipe dessa linha de frente não encontra representação no presidente do país, que demonstra um comportamento irresponsável.

Para fechar, retomo o samba, gênero que marcou minha vivência no bar do meu pai e onde organizei festas com amigos. A perda nos coloca em xeque, com a impressão de que tudo acabou. Mas olhando com atenção e paciência, as raízes não se perdem assim tão facilmente. É com a força delas que a gente volta a acreditar na vida e no futuro.

O meu medo maior é o espelho se quebrar
("Espelho", de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

("Além do Espelho", de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

(*) Thiago Castelli é historiador e educador.

Leonardo Sakamoto