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Explosão em Beirute, covid no Brasil: a morte em massa virou rotina em 2020

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/08/2020 16h15

A tragédia ocorrida no porto de Beirute, capital do Líbano será um dos eventos mais vistos do ano. Uma coluna de fumaça deu lugar a uma explosão, gerando uma semiesfera branca de proporções apocalípticas, seguida de uma onda de choque que destruiu tudo o que encontrou pelo caminho, ceifando vidas e deixando feridos.

Muitos consumiram a tragédia como espetáculo, esvaziada de seu significado de morte, dor, destruição. Passamos a assistir a cena uma, duas, três vezes, através de vídeos curtos recebidos pelo WhatsApp, como se aquilo fosse cena de um filme ou uma série distópica. O que chocou foi a explosão, não suas consequências. Da mesma forma, estamos esquecendo o que significa a montanha de corpos da covid. A morte em massa não mexe conosco em 2020 como acontecia antes.

Prestes a atingir 100 mil óbitos devido ao coronavírus, o Brasil transformou a morte em rotina e a esvaziou. Todos os dias, mais de mil brasileiros perdem a vida por um motivo estúpido e, em grande parte, evitável - se tivéssemos governo. Não que milhões de pessoas não tenham medo de morrer ou de perder uma pessoa querida por causa da doença. Mas acabamos por tornar o morticínio parte de nosso cotidiano por negacionismo, por autoproteção, por necessidade. A ponto do próprio presidente da República ter cunhado uma frase com a síntese de sua política: "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo". Frase que tem sido repetida por muita gente, de empresários a motoristas de táxis.

Nesta terça, tivemos 1394 mortos. Foi como se sete aviões da TAM, daquela tragédia terrível que matou 199 pessoas, em julho de 2007, caíssem em 24 horas. Ou se quase mais de cinco barragens da Vale, em Brumadinho, que gerou 259 mortos e 11 desaparecidos em janeiro de 2019, estourassem em um dia. Enquanto isso, engenheiros-civis-formados-não-cidadãos e desembargadores praianos xingam e ameaçam servidores públicos que tentam fazer cumprir as regras sanitárias.

Assistam à íntegra análise em vídeo na coluna semanal no canal do UOL no YouTube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL