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Repleto de ironias, caso de Chico Rodrigues entrará para os anais do Senado

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/10/2020 00h36

Tal como a família Bolsonaro, Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo no Senado Federal, parece que gosta de usar dinheiro vivo.

Gosta tanto que a Polícia Federal afirma ter encontrado um punhado dele entre suas nádegas, nesta quarta (14), durante busca e apreensão em sua casa em Boa Vista como parte de uma operação contra o desvio de recursos públicos da Saúde.

Agora, a PF quer saber se valores que seriam usados para evitar que pessoas morressem na pandemia estavam escondidos nas nádegas de um dos representantes de Bolsonaro na câmara alta do Congresso Nacional.

De acordo com os agentes, cerca de R$ 30 mil foram encontrados na residência de Rodrigues e, uma parte disso, no próprio senador. A PF não informou sobre a lavagem do dinheiro.

A operação Desvid-19 foi tocada pela PF e pela Controladoria Geral da União, com mandados expedidos pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. A informação foi originalmente publicada pela revista Crusoé.

Há tantas ironias entuchadas nessa história que ela entrará, certamente, para os anais do Senado.

Primeiro, em discurso no dia 7 de outubro, o presidente afirmou: "Eu acabei com a Lava Jato. Por que não tem mais corrupção no governo". Nesta quarta (14), voltou a tocar no assunto, dizendo que se alguém andar fora da linha levará "uma voadora no pescoço". A operação desta quarta mostrou que o problema está mais embaixo.

Segundo, na já icônica reunião ministerial de 22 de abril, o presidente reclamou dos adversários políticos, afirmando que "o que os caras querem é a nossa hemorroida". O guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, cita sistematicamente o ânus em suas intervenções. O final do intestino grosso também foi usado em repetidas interpelações do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos). Analistas que apontavam para a fixação anal na cúpula do poder e chegaram a ser atacados por bolsonaristas devem se sentir vingados.

Terceiro, Bolsonaro foi criticado por lançar a nota de R$ 200. Na época, uma das possibilidades levantadas é que isso favoreceria transporte de dinheiro ilegal, inclusive na cueca. Ninguém sabe o que a PF encontrou no senador, mas um lobo-guará ocupa o mesmo espaço de duas garoupas, quatro onças-pintadas ou dez micos-leões dourados sendo, portanto, uma mão na roda.

"É quase uma união estável, hein Chico?"

Sem contar que, em um vídeo que circula nas redes sociais, Bolsonaro brincou com a longa convivência com Chico Rodrigues, na Câmara dos Deputados, chamando o período de "quase uma união estável". Nas imagens, o senador comenta que ele "está retomando a moralidade".

No dia 31 de março de 2016, o então deputado Bolsonaro criticou governos com aliados flagrados com dinheiro na cueca. "Quero dizer ao líder do PT, que há pouco passou por esta tribuna, que presidencialismo de coalizão não é vale-tudo, não! Não é jogar ministério para cima e enfiar dinheiro na cueca de assessor parlamentar, não!". Ele se referia ao caso de um assessor do partido flagrado, em julho de 2005, com dólares nas roupas íntimas em um aeroporto.

Agora, um dos líderes de seu governo e pessoa com quem teve "quase uma união estável" também foi flagrado com dinheiro enfiado na cueca.

Ironicamente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) chamou José Guimarães (PT-CE), que era chefe do tal assessor, de "deputado do cuecão" mais de uma vez - o que dá pistas ao apelido que dará ao aliado Chico Rodrigues, caso seja coerente.

"Tenho um passado limpo", afirmou o senador em nota. Ele disse que confia na Justiça e que irá provar que não tem envolvimento com qualquer ato ilícito.

A quarta começou com o debate sobre milhares de presos sem julgamento e sobre as decisões do Supremo Tribunal Federal sobre o caso André do Rap. Terminou com a hashtag #PropinaNaBunda nos trending topics do Twitter. Mais um dia normal no Brasil.

E por falar em gostar de dinheiro vivo, ainda tem o Ministério Público de olho nas rachadinhas de outro senador, Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL