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Leonardo Sakamoto

Principal telejornal da TV do governo federal ignora falta de oxigênio

14.jan.2021 - Familiares de pacientes levam cilindro de oxigênio para o Hospital e Pronto-Socorro 28 de agosto, em Manaus - Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo
14.jan.2021 - Familiares de pacientes levam cilindro de oxigênio para o Hospital e Pronto-Socorro 28 de agosto, em Manaus Imagem: Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/01/2021 16h55Atualizada em 22/02/2021 10h51

O colapso hospitalar em Manaus por conta do salto no número de casos de covid-19 e da consequente falta de oxigênio para tratar pacientes com essa e outras doenças não deu as caras, nesta quinta (14), no horário nobre do jornalismo da TV Brasil, que pertence ao governo federal.

O principal telejornal da emissora não falou de quem estava sufocando pela ausência do produto, nem da remoção de pacientes para outros estados ou da oferta de oxigênio pelo governo venezuelano de Nicolás Maduro.

Enquanto isso, Cultura, SBT, Globo, Record, RedeTV, Gazeta, Bandeirantes, CNN e GloboNews dedicaram espaço em seus telejornais noturnos para falar dos impactos da falta de oxigênio na capital amazonense.

O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), vem sendo apontados como responsáveis tanto pelo aumento no número de casos quanto por não evitar o esgotamento do produto.

Sobre Manaus, o telejornal da TV pública, vinculada à estatal Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), trouxe uma matéria sobre o cancelamento do Enem por conta do aumento no número de mortos na cidade, que durou 54 segundos.

Sem notícia sobre O2, mas com relatos de incêndio na Lapa e aumento em consórcios

Na mesma edição, os apresentadores Katiucia Neri e Paulo Leite destacaram um incêndio que ocorria em uma loja no boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. E trataram do aumento na venda de consórcios.

Mas "falta de oxigênio" ficou fora no ar.

Na prática, enquanto a população brasileira se assustava com os relatos e imagens da falta de oxigênio nos hospitais da capital amazonense, com a asfixia de pacientes, o público da TV Brasil sequer soube o que acontecia.

A coluna ouviu funcionários que trabalham na emissora, em condição de anonimato. Afirmam que, mais do que um fato isolado, isso é um padrão. A cobertura na pandemia, segundo eles, vem sendo protocolar, sem ouvir vítimas e familiares, sem dar a dimensão da gravidade da doença.

Além disso, reclamam que o telejornal está focado em atuar como assessoria do governo federal, tendo coberto a visita de Pazuello a Manaus, por exemplo. "Houve um dia em que a TV Brasil ficou ao vivo, por 20 minutos, registrando o presidente da República dar 'tchau' em uma rodovia", afirmou um dos ouvidos. "E agora nada sobre o principal assunto do dia. É frustrante."

Outros dois veículos da estatal, a Agência Brasil e a Rádio Nacional, divulgaram a questão do colapso, mesmo que com destaque menor do que outros veículos de comunicação. Jornalistas da EBC também afirmam que a matéria da rádio saiu menor por orientação interna.

Apuração do colunista do UOL, Rubens Valente, apontou que um contrato entre a Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República) e a EBC prevê multa para o caso da empresa "não seguir a linha editorial informada" pelo governo federal.

A Secom afirmou que "as pautas do contrato firmado entre a União/Secom e a EBC são relativas à comunicação estatal" e negou ameaça ao jornalismo.

Posicionamento da EBC

A EBC respondeu a solicitação de informação da coluna no dia 18 de fevereiro, mais de um mês depois.

"Recebemos informações confirmadas sobre a falta de oxigênio nos hospitais do Amazonas na quinta, 14 de janeiro de 2021, às 18h38. Foi nesse horário que a nossa parceira no estado, a TV Encontro das Águas, nos mandou uma nota seca (ou seja, sem imagens) depois de apurar o assunto, já que a EBC não possui estrutura própria de TV no Estado do Amazonas. O Repórter Brasil (RB), que vai ao ar das 19h às 19h30, divulgou as informações repassadas pela TV parceira."

Segundo a EBC, "a pauta consolidou-se apenas pela manhã e início da tarde do dia 15 (sexta)" e "o telejornal diurno Brasil em Dia já divulgou matéria com mais detalhes sobre o assunto". Também disse que "à medida que mais informações foram sendo apuradas e confirmadas, mais conteúdo foi sendo produzido sobre o tema".