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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vídeo de Daniel Silveira é aula de como o bolsonarismo manipula a violência

Daniel Silveira foi preso em flagrante pela Polícia Federal na noite dessa terça (16), depois de divulgar um vídeo com discurso de ódio contra os membros do STF - Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
Daniel Silveira foi preso em flagrante pela Polícia Federal na noite dessa terça (16), depois de divulgar um vídeo com discurso de ódio contra os membros do STF Imagem: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/02/2021 22h09Atualizada em 19/02/2021 08h26

O vídeo em que Daniel Silveira (PSL-RJ) ameaçou ministros do Supremo Tribunal Federal e defendeu a ditadura militar, e que o levou à cadeia, surpreende pela agressividade, a miríade de termos chulos e o uso de expressões que demonstram imaturidade. É bizarro mesmo para uma pessoa que ficou nacionalmente conhecida ao depredar uma homenagem à Marielle Franco, vereadora que havia sido recém-executada no Rio de Janeiro.

Para além de apresentar um deputado federal desqualificado e superficial, o vídeo demonstra a estratégia bolsonarista de usar a violência para excitar e mobilizar o naco de extrema direita que acredita que o principal conteúdo está na forma. Ao ouvi-lo, esse grupo avalia que Silveira é honesto por "falar o que pensa", corajoso por "dizer umas verdades para os poderosos" e necessário por "passar por cima dos direitos humanos e do politicamente correto".

O fato de ele cometer uma série de crimes no meio disso é apenas um detalhe. Até porque muitos de seus seguidores se importam com o cumprimento da lei apenas se ela corroborar seus pontos de vista, caso contrário a lei está errada.

Se não fosse assim, ficariam indignados com o fato dele ter sido pego, nesta quinta (18), pela Polícia Federal, com dois celulares no local onde estava preso. Afinal, manter celular ilegalmente em uma cela é coisa de bandidão mais rastaquela, que burla o sistema na cadeia para ganhar uns trocados aplicando golpe.

Ele poderia ter criticado o Supremo Tribunal Federal usando argumentos, de forma decente. Teria gasto um quinto do tempo. Mas isso não faria com que o vídeo viralizasse, nem que fosse elogiado por outras figuras do seu círculo, como o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, muito menos que o caso chegasse em Jair. Pelo contrário, seria chamado de "frouxo" pelo naco de seus seguidores que se acostumaram com um ex-policial youtuber que atira primeiro, depois pergunta.

Abaixo, alguns trechos do vídeo:

"Fachin, seu moleque, seu menino mimado, mau caráter, marginal da lei, esse menininho aí, militante da esquerda, lecionava em uma faculdade, sempre militando pelo PT, pelos partidos narcoditadores, nações narcoditadoras. (...)Você integra, tipo assim, a nata da bosta do STF, certo? (...) Agora, que você tem que tomar vergonha na sua cara, olhar, quando você for tomar banho, olhar o bilauzinho que você tem e falar: 'Pô, eu acho que sou um homenzinho. Eu vou parar com as minhas bobeirinhas'. (...) O que acontece, Fachin, é que todo mundo já está cansado dessa sua cara de filho da puta que tu tem. Essa cara de vagabundo."

"Por várias e várias vezes já te imaginei tomando uma surra. Ô! Quantas vezes eu imaginei você e todos os integrantes dessa corte aí. Quantas vezes eu imaginei você, na rua, levando uma surra. O que você vai falar? Que eu tô fomentando a violência? Não. Eu só imaginei. Ainda que eu premeditasse, ainda assim não seria crime. (...) Então, qualquer cidadão que conjecturar uma surra bem dada nessa sua cara com um gato morto até ele miar, de preferência, após cada refeição, não é crime."

"Suprema Corte é o cacete. Na minha opinião, vocês já deveriam ter sido destituídos do posto de vocês e uma nova nomeação convocada e feita de 11 novos ministros. Vocês nunca mereceram estar aí. (...) Eu acho que vocês não mereciam estar aí. E, por mim, claro, claro, que se vocês forem retirados daí, seja por nova nomeação, seja pela aposentadoria, seja por pressão popular, ou seja lá o que for. Claro que vocês serão presos, porque vocês serão investigados."

Claro que Daniel Silveira pensa tudo o que disse e, provavelmente, coisas muito piores. A questão é que também sabe que a espetacularização da violência garante reputação e, futuramente, reeleição.

Principalmente quando é feita contra autoridades constituídas, ou seja, contra o sistema - mesmo que agentes de segurança violentos sejam a coisa mais sistêmica que poderíamos ter.

Políticos, magistrados, religiosos fundamentalistas, comunicadores, humoristas dizem que não incitam a violência contra outras pessoas, como Silveira disse que não estava fazendo enquanto efetivamente fazia. Podem não ser suas mãos que seguram a arma, a faca e o porrete, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce a visão de mundo das pessoas comuns e torna o ato de atirar, esfaquear e espancar banal.

Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é moralmente aceitável, visão que depois será consumida e praticada por seus seguidores. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória. Ou divina.

Aliás, se Cristo vivesse hoje, seria morto novamente em nome de Deus. E morreria com duplo desgosto ao ver pastores, que dizem serem seus servos, exigirem a deputados da bancada religiosa no Congresso Nacional que votem a favor da libertação de Daniel Silveira sob pena de não serem reeleitos.

Bolsonaro (ou alguém por ele autorizado) postou o, hoje, icônico vídeo de um casal de leões e de hienas que os cercavam em 2019. O presidente se desculpou posteriormente por ter comparado o STF a um mamífero selvagem, carniceiro e que come cocô, mas o vídeo já havia cumprido sua dupla função: cortina de fumaça sobre os Queiroz Hits - áudios que foram um sucesso tão grande quanto uma pica do tamanho de um cometa - e alimento para seus seguidores mais fanáticos, excitando-os para a guerra política.

No dia 30 de outubro de 2019, o vídeo dos leões e hienas começou a fazer efeito. Após dar uma palestra em um evento do jornal O Estado de S.Paulo, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, teve o carro cercado por 15 manifestantes, que chegaram a bater em sua lataria. Vestidos de verde e amarelo, gritando palavras de apoio a Bolsonaro e ao então ministro Sergio Moro e reclamando do julgamento da prisão após condenação de segunda instância, estenderam uma faixa com os dizeres "Hienas do STF". Causa e efeito.

Jair Bolsonaro e seu entorno estimulam, entre seus apoiadores, que testem os limites da democracia e, se puder, avancem sobre ela sob a justificativa de que estão moralizando a coisa pública - quando, de fato, estão destruindo-a.

Como já disse aqui, ele poderia tocar o berrante e chamar os seus de volta, como poderia o deputado hoje preso, mas ambos não farão tal coisa porque dependem desse estado de constante tensão e beligerância para se manterem politicamente vivos.

E de pessoas que buscam explicações simples para reduzir sua ansiedade diante da complexidade do mundo. E que procuram raiva enlatada na internet para, consumindo-a, desopilar suas frustrações e justificar sua própria ignorância.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL