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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Silveira perde poder, mas se fortalece na disputa de sociedade, diz Freixo

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em viagem com o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) - Reprodução/Facebook Daniel Silveira
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em viagem com o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) Imagem: Reprodução/Facebook Daniel Silveira
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/02/2021 11h33

"Daniel Silveira perde a disputa pelo espaço de poder, mas estará mais forte numa disputa de sociedade. Ele sabe que vai ser cassado e que vai se tornar youtuber para disputar a sociedade."

A avaliação é do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) sobre as perspectivas para seu colega de parlamento, preso, nesta terça (16), após publicar um vídeo com ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal e apologia à ditadura militar. A Câmara julga, hoje, se mantém sua prisão decretada pelo STF.

À coluna, Freixo disse que esse certamente não era o plano do deputado do PSL fluminense, mas é o que deve acontecer. "Pode ser estranho dizer isso neste momento em que ele está em queda. Mas, com este episódio, ele sai cacifado para uma disputa de sociedade. Uma disputa tosca, claro, mas que faz parte de um projeto de longo prazo."

O deputado do PSOL, que foi alvo de ataques de Silveira por sua atuação na área de direitos humanos e de segurança pública, lembra que o próprio bolsonarismo é uma disputa de poder, mas também de sociedade. E alerta que não são a mesma coisa.

"Podemos derrotar Bolsonaro e o projeto de poder bolsonarista, mas a concepção bolsonarista de sociedade vai levar muito tempo para ser derrotada. Uma concepção armada, machista, intolerante, racista, que não foi Bolsonaro que inventou, mas que ele assumiu como sua, e que se alimenta de tradições históricas muito fortes", avalia.

Para ele, o campo democrático tem que aprender a fazer a disputa por um modelo de sociedade plural. Coisa que a extrema direita já faz com o seu modelo, ocupando e produzindo no YouTube.

"Um exemplo: após uma votação importante na Câmara, com vitória do governo, todos os deputados youtubers fizeram selfies para as redes sociais. Na verdade, eles não estavam no plenário. Lá é o meio, eles estavam em outro lugar, disputando a sociedade", conta Freixo.

"Sou da Comissão de Segurança Pública, onde poucos parlamentares não têm patente. É tudo deputado cabo, delegado, coronel... Lá é a mesma coisa. Há deputado-youtuber e deputado-policial-youtuber", afirma.

De acordo com ele, esses parlamentares fazem a disputa de sociedade baseada na ideia de medo. E mesmo que nem a polícia os veja como representantes (o próprio Daniel Silveira foi preso dezenas de vezes enquanto foi policial militar no Rio por problemas de conduta), eles criam essa representatividade na rede.

Citando o livro "Engenheiros do Caos - Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições", do jornalista italiano Giuliano Da Empoli, Freixo ressalta que a verdade se tornou o lugar do conforto. "Vou buscar na verdade o mundo que é o melhor para mim, que eu consiga ler. E esses caras navegam nessa verdade do medo e do conforto, entregando uma sociedade que caiba nos seus seguidores", diz.

"A questão das armas não é sobre armamento, mas sobre uma sociedade armada. Precisamos discutir por que é ruim uma sociedade armada", afirma, fazendo referência aos debates no Congresso sobre os decretos da Presidência da República que facilitaram a aquisição de armas e munição. "E isso não será feito apenas no voto de leis no Congresso, mas no dia a dia da sociedade", conclui.

Errata: o texto foi atualizado
Daniel Silveira, claro, é do PSL-RJ e não do PSC-RJ.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL