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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com 1582 mortes por covid em 24h, bolsonarismo bate seu recorde e quer mais

15.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passeia de jet ski e causa aglomeração em praia de São Francisco do Sul (SC) - Dieter Gross/Ishoot/Estadão Conteúdo
15.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passeia de jet ski e causa aglomeração em praia de São Francisco do Sul (SC) Imagem: Dieter Gross/Ishoot/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

25/02/2021 21h14

O Brasil bateu, nesta quinta (25), o recorde de mortes registradas em um único dia por covid-19: 1.582. Isso equivale a quase oito acidentes com aviões da TAM, como aquele de julho de 2007, ou quase seis rompimentos de barragens da Vale, como a de Brumadinho, em janeiro de 2019. O principal arquiteto de tudo isso, contudo, parece insatisfeito. Pelo jeito, quer mais.

Prova disso é que enquanto o país ultrapassava a marca de 250 mil óbitos, nesta quarta, Jair Bolsonaro promovia um evento-aglomeração com cerca de 400 pessoas no Palácio do Planalto. Entre elas, dezenas de prefeitos que, se contaminados, voltarão às suas cidades espalhando vírus pelo caminho.

Já é difícil, depois de um ano de pandemia, garantir que todos nós mantenhamos distância uns dos outros e evitemos festas. Fica uma tarefa ainda mais ingrata com um Sabotador da República promovendo aglomerações, como aquelas que ele promoveu no Carnaval, em praias de Santa Catarina.

O pior é, considerando que o vírus é altamente contagioso e não afetam todos do mesmo jeito, talvez nem seja os que aglomerem que vão sofrer, mas pais, mães, avôs e avós. Ou empregadas domésticas, porteiros, vigias, seguranças, cozinheiras, babás, motoristas.

Para piorar, o recorde de mortes vem junto com a falta de dinheiro. Com a pandemia na sua pior fase, escassearam oportunidades de serviço.

Milhões tiveram que ir à luta por falta de opções, lotando ônibus e trens, não pelo desejo suicida de se aglomerarem, mas por necessidade.

Outros milhões não conseguiram nada e estão passando dificuldade até porque o governo Bolsonaro não quis renovar o auxílio emergencial no final do ano passado.

Desses, muitos vão dormir com fome nesta noite porque o ministro da Economia Paulo Guedes quis enfiar uma minirreforma econômica como condicionante para aprovar a extensão do auxílio. Quis aproveitar a corda no pescoço dos paupérrimos para tirar recursos da educação e da saúde, que beneficiam veja só, pobres e paupérrimos.

À medida que a pandemia avançou, líderes que desprezavam a doença mudaram de estratégia ao perceberem que o negacionismo de longo prazo poderia levar a um prejuízo, não apenas político pelo grande número de mortos, mas também pelo impacto negativo de uma economia deprimida.

Como sua natureza beligerante e egoísta o torna incapaz de articular com adversários eleitorais em prol de um objetivo comum, Bolsonaro não preparou o país para a mais importante guerra de sua história. Abraçou o vírus, defendendo que a melhor forma de acabar com a pandemia é deixando que ela vença, infectando rapidamente a população para criar imunidade.

Acha que a população vai esquecer os 250 mil quando ele começar a pagar parcelas de R$ 250.

Bolsonaro vem apostando na estratégia da "seleção natural", com os mais fortes sobrevivendo - o que, de certa forma, é coerente com quem sempre foi.

Sobre os mortos? "Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", como disse o presidente em 28 de abril. "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", afirmou em 2 de junho. "Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas", sentenciou em 10 de novembro. "Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida", resumiu em 27 de março.

Nesta quinta, como era de se esperar, celebrou o recorde de mortes com mais frases. Questionou a eficácia das máscaras, falando de supostos "efeitos colaterais das máscaras" e criticou o isolamento, dizendo que a população quer voltar a trabalhar, mas governadores e prefeitos não deixam.

Bolsonaro é o arquiteto dessa tragédia, contudo não a construiu sozinho. Há uma parcela da população que, ao final de tudo isso, não poderá dizer que estava apenas seguindo o exemplo do presidente. Esse naco tem consciência plena de seu comportamento irresponsável, mas simplesmente deu de ombros por ser mais jovem (e não fazer parte do grupo de risco) ou rico (e ter acesso aos melhores tratamentos).

A História nos ensina muitas coisas. Uma delas é que ninguém comete um crime contra a humanidade sem apoiadores.

O bolsonarismo, vale lembrar, vai continuar por aqui muito tempo depois que Bolsonaro se for.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL