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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Covid: 1840 morreram de 'mimimi' na quarta, e 1726 de 'frescura' na terça

Cemitério Parque em Manaus, lotado por mortes devido à covid-19 - Carlos Madeiro/UOL
Cemitério Parque em Manaus, lotado por mortes devido à covid-19 Imagem: Carlos Madeiro/UOL
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/03/2021 16h47

O Brasil viveu mais um capítulo da "Era do Foda-se", quando o presidente da República, discursando em São Simão (GO), nesta quinta (4), falou:

"Vocês [produtores rurais] não ficaram em casa, não se acovardaram. Nós temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos que enfrentar os problemas. Respeitar, obviamente, os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades. Mas onde vai parar o Brasil se só pararmos?"

Perdemos as contas do número de vezes em que ele menosprezou a pandemia e incentivou aglomerações, sapateando sobre a montanha de cadáveres - que hoje está em 261 mil, mas subindo.

Tudo isso é repetitivo - o que faz com que as reclamações sobre seu comportamento pareçam presas, junto com Bill Murray, num Dia da Marmota. É sensação de déjà vu a cada tentativa de interpretar um novo lance cheirando a mofo da necropolítica presidencial.

Donald Trump, cujo negacionismo foi menor que o de Bolsonaro, adotou o mesmo método de minimizar as mortes para forçar um retorno da economia à normalidade. A forma como lidou com a pandemia ajudou a minar sua reeleição. Mesmo assim, o seu discurso encontrou eco.

Enquanto Joe Biden recebeu 81,3 milhões de votos, Trump ficou com 74,2 milhões - muitos dos quais concordaram com sua forma de enfrentamento ao problema e, portanto, sua visão de mundo. Parte acredita que os Estados Unidos poderiam ter perdido muito mais do que 518 mil vidas (até agora) se o presidente fosse outro. Outra parte, que não havia nada que ele poderia ter feito para impedir a catástrofe - comportamento semelhante ao que ocorreu por aqui.

Levantamento do Datafolha, divulgado no dia 24 de janeiro, aponta que 47% dos brasileiros afirmam que Bolsonaro não tem culpa nenhuma pelas mortes, 39% dizem que é um dos culpados e 11% que é o culpado principal. Com a atual escalada de mortes, os números podem ter mudado, mas ainda assim, esse é o resultado após quase um ano de pandemia.

O que lembra que nossos presidentes são causas de tragédias, mas também fruto de uma parte de nossas sociedades que neles se enxergam. 

No Brasil, temos o bolsonarismo-raiz, representando de 12% a 16% da população, mas também outros grupos oportunistas - que não pulam do penhasco se o presidente mandar, mas querem aproveitar a sua administração autoritária para conseguir o que não seria possível numa democracia. Sempre me lembro disso ao ouvir rigorosas palmas quando ele diz coisas que ferem a dignidade humana, como as desta quinta.

Bolsonaro fez a mesma aposta que Trump ao longo do ano passado. E, agora, diante de recorde atrás de recorde de óbitos, dobra a aposta. Acredita que a morte de 0,12% da população pela pandemia atrapalha menos seu caminho à reeleição do que uma economia em apuros e seus mais de 14 milhões de desempregados. Simultaneamente, investe na tática de culpar governadores, prefeitos, a imprensa, o destino por aquilo que era sua responsabilidade - de preservar vidas a compras vacinas.

Como há tempo e as realidades são diferentes, Jair pode ser mais bem sucedido que Donald.

Até uma marmota que se assusta com sua própria sombra sabe que empregos não vão ser gerados em massa enquanto as pessoas continuarem morrendo em escala industrial. Mesmo assim, em uma sociedade cansada de quarentena, o presidente vai conseguindo impor sua visão de que o isolamento é que leva à fome e não a demora dele em retomar o auxílio emergencial.

O capitão reformado poderia ter assumido o papel de comandante da maior guerra que o país já teve, articulando esforços nacionais em nome do bem comum. Possivelmente, sua popularidade estaria bem melhor e a reeleição mais garantida. Mas aí teria que abandonar seu comportamento beligerante, inclusive com relação a potenciais adversários em 2022, o que frustraria sua base.

Como disse aqui, o presidente defende que a solução é ir para a rua. E, se pegar a doença, pegou. E se morrer, morreu. E seus seguidores vão à loucura com isso.

Pediu-se a Bolsonaro que ajudasse a combater o vírus. Mas não foi possível, ele não topou. Depois, que parasse de atrapalhar quem estava combatendo. Contudo, também não rolou. Como o leasing que estabeleceu com o Congresso Nacional tem longo prazo, não há muita esperança de ele ser impedido antes de um desastre de bíblicas proporções.

Então, resta apenas pedir: por favor, presidente, evite tripudiar quem morreu e quem perdeu entes queridos. Também, claro, sem muita esperança de ser atendido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL