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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em vez de ajudar estados recordistas em mortes, Bolsonaro quer a guerra

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/03/2021 20h18

Com 2.798 mortes, o Brasil bateu, mais uma vez, o recorde de óbitos registrados em 24 horas. Reforça, assim, por que somos o epicentro da pandemia e uma ameaça sanitária global. Dois estados puxaram os números, também com recordes: o Rio Grande do Sul, com 501 óbitos, e São Paulo, com 679.

Ambos são liderados por governadores tucanos que o presidente vê como possíveis adversários na sua reeleição de 2022. E em vez de ajudar esses Estados, que contam com grandes cidades e são polos hospitalares, recebendo doentes de outras regiões, Jair Bolsonaro resolveu brigar. São Paulo chegou a ter que ir ao Supremo Tribunal Federal a fim de liberar os recursos da União para financiar leitos de UTI covid. O resultado de tudo isso: uma montanha de corpos.

Ao invés de estabelecer um plano para conter o avanço das mortes em território nacional, articular prefeitos e governadores para um processo de fechamento de regiões e atividades econômicas, garantir logística de oxigênio, leitos de UTI e testes para covid e correr com o pagamento do auxílio emergencial, o presidente da República empurra seus seguidores para a guerra.

Neste domingo (14), protestos de apoiadores de Bolsonaro foram realizados em diversas cidades do país, atacando governadores e medidas restritivas para combater a covid-19 e pedindo intervenção militar e a retirada de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Em São Paulo, houve manifestação com aglomeração e carreata na avenida Paulista. Faixas como "Intervenção Militar com Bolsonaro no Poder" e "Fora Doria Já, Intervenção Já" eram empunhadas por pessoas que pediam golpe militar e a deposição do governador.

Em Porto Alegre, não foi diferente. Também houve carreata e manifestação em frente ao Comando Militar do Sul, indo pelo mesmo caminho obscuro, com faixas dizendo "Povo unido jamais será vencido. Exército Já", "Fora Supremo Tribunal Federal" e "Fora Eduardo Leite".

A resposta veio, nesta segunda (15), em uma audiência da comissão do Senado Federal que discute medidas contra a covid. O governador paulista João Doria afirmou que pretende ajudar a levar Bolsonaro a ser "julgado por esse genocídio" em tribunais internacionais.

E o governador gaúcho Eduardo Leite afirmou que "não há ministro que consiga trabalhar com a sabotagem feita pelo próprio presidente da República às medidas necessárias para o combate ao coronavírus".

Os tucanos também fazem política eleitoral com a pandemia, como esta coluna já relatou outras vezes. Não há como esquecer, por exemplo, a campanha "BolsoDoria" realizada pelo governador para garantir sua eleição em 2018, muito menos a demora em endurecer a quarentena em São Paulo apesar do aumento no número de casos por conta da campanha de seu correligionário, Bruno Covas.

Mas, neste momento, não são os dois que estão usando o poder do cargo contra a vida das pessoas e empurrando trabalhadores para a rua na lógica do pegar, pegou, morrer, morreu, ou menosprezando o sofrimento das famílias, pedindo para as pessoas pararem com o choro e deixarem de "frescura" e "mimimi".

Você provavelmente deve ter lido a análise nesta coluna e nas de meus colegas nos últimos dias de que enquanto Bolsonaro ditar o que pode e o que não pode no combate à covid, sujeitando as medidas sanitárias à sua torta lógica eleitoral, qualquer ministro da Saúde será um fantoche em suas mãos.

Por isso, qualquer novo ocupante do cargo, por mais bem-intencionado que seja, que prometa reduzir o numero de mortes imediatamente apenas com vacina está contando uma mentira. Não temos estoque suficiente de imunizantes porque o presidente não quis comprá-los no ano passado. Portanto, para frear a escalada de mortes agora precisamos fechar as portas.

Estados e prefeituras já estão tomando a decisão de adotar bloqueios mais duros, como Araraquara e Ribeirão Preto (SP), mas de forma individual, com baixa coordenação, o que os torna imperfeitos. O presidente que deveria assumir essa tarefa é contra porque acredita que ela vai criar mais problemas à economia e, consequentemente, à sua reeleição. Para se justificar, sempre que pode, diz que o STF o impediu de tomar decisões. Mentira, ele que não quis.

Ao mesmo tempo, seu comportamento bélico dificilmente permitiria uma articulação sensata com adversários em nome do bem comum. Prefere excitar seus seguidores negacionistas, que são sua base de sustentação contra qualquer tentativa de remove-lo constitucionalmente do cargo, mesmo que sua manutenção signifique prejuízo à vida humana.

Nunca pensei que diria isso, mas reeleição mata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL