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Leonardo Sakamoto

Com 30% de aprovação, Bolsonaro afasta impeachment mesmo sabotando a saúde

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

17/03/2021 10h01Atualizada em 17/03/2021 21h08

O Datafolha trouxe algumas "boas notícias" para Jair Bolsonaro. Apesar de sua sabotagem explícita no combate ao coronavírus ter levado o país a mais de 280 mil mortos, apenas 54% da população rejeitam sua gestão da pandemia, meros 43% acreditam que ele é o principal culpado pela situação da crise e só 56% consideram-no incapaz de liderar o Brasil. E a cereja do bolo: 50% são contra seu impeachment e 46%, a favor.

Enquanto isso, a aprovação geral do seu governo se manteve estável, indo de 31% em janeiro para 30% agora em março - meses em que o país viu brasileiros sufocarem com a falta de leitos de UTI para covid, chegando a registrar quase três mil mortes num único dia. A reprovação foi de 40% para 44% no mesmo período.

Nada adianta o aumento do número daqueles que fazem beicinho de reprovação se ele continua com um estofo ainda confortável. Com 30%, o impeachment é uma realidade distante. O ex-presidente Michel Temer chegou a ridículos 3% e, mesmo assim, foi salvo pelo Congresso Nacional por conta do balcão de negócios que estabeleceu por lá.

Bolsonaro também fechou um contrato de aluguel com parlamentares do centrão e conseguiu colocar aliados na direção do Congresso Nacional (que resistem à ideia de CPI da Pandemia) e em outros postos-chave, como a presidência da Comissão de Constituição de Justiça da Câmara - que analisaria um impeachment.

Mas a certeza que está amparado em seus apoiadores é tanta que deu um passa-moleque na sua base aliada ao rejeitar os indicados por ela para substituir o Eduardo Pazuello e escolher alguém que garantirá "continuidade" na gestão da Saúde. Em outras palavras, que não atue na promoção das quarentenas e lockdowns - as únicas formas de reduzir mortes, neste momento, uma vez que Jair não quis comprar vacinas em quantidade suficiente no ano passado.

O cálculo do presidente é e sempre foi governar para os 14% que o Datafolha aponta como bolsonarismo-raiz, o pessoal de extrema direita que pula no abismo se ele mandar.

Mas isso, claro, não basta. A eles, agregou outros que não concordam com ele em tudo, mas aprovam partes de sua gestão. Por exemplo, além de determinados grupos evangélicos mais conservadores, há setores do empresariado, como o agronegócio, que têm ganhado um bom dinheiro com exportações e com a alta dos alimentos no mercado interno. Não é à toa que Bolsonaro vira e mexe faz um comício em uma cidade-polo do interior, onde é mais pop.

E soma-se também uma parte dos trabalhadores mais pobres, que foram beneficiados com o auxílio emergencial no ano passado e ainda o têm em boa conta. Ainda mais quando o benefício voltar, ainda que mirrado.

Em qualquer outro país, um governante que menosprezasse a pandemia, chamasse de "frescura" e "mimimi" o choro pelos mortos, atacasse publicamente a vacina por meses dizendo que ela faria mal às pessoas e usasse "lamento, mas todo mundo morre um dia" como mote informal de sua gestão na crise seria enxotado do cargo.

Até um poodle seria menos danoso à saúde pública. O canino não seria capaz de articular Estados e municípios para um processo de fechamento do país visando a salvar vidas e reduzir os danos para a economia no longo prazo. Mas até aí, Bolsonaro também não, com o agravante que ele morde quem faz.

O presidente tem se vendido como defensor da economia, deixando para governadores e prefeitos, que lutam contra o vírus, a "culpa" pelo fechamento de negócios e a perda de empregos. Assim, a aprovação deles também vem caindo, segundo o Datafolha. E, com isso, faz coro a uma ala do empresariado.

Com a escalada do número de mortes e uma deterioração da economia, a situação pode mudar. Mas dificilmente chegará ao ponto de renúncia do presidente, que cooptou parte da cúpula das Forças Armadas em troca de cargos e algum prestígio questionável, ou de impeachment.

Se chegar às portas da eleição de 2022 com cerca de 30% do eleitorado e, até lá com uma população vacinada, e se houver uma retomada, mesmo tímida, da economia, entrará na disputa como um dos favoritos a despeito do rastro de mortes que poderá ser duas vezes maior do que os números que temos agora.

Só precisará que uma parte dos brasileiros compre a ideia de que ele não poderia ter feito nada e a morte é o destino de todo mundo, como sempre diz. E que Lula não entre na jogada com o apoio de uma parte do centrão no Norte e Nordeste.

Manifestações de rua contra Bolsonaro podem voltar a acontecer quando o pior da pandemia passar. Mas teriam que ser gigantes, como as de 2015 e 2016, para fazer um estrago. E agregar a direita democrática, para além da esquerda e dos movimentos sociais.

O que pode arranhar sua imagem junto ao seu núcleo são as evidências de roubo de dinheiro público (as chamadas "rachadinhas") que recaem sobre sua família. É por isso que toda vez que elas vêm a público, como fez o UOL nesta semana, ele joga uma cortina de fumaça falando alguma aberração sobre a pandemia.

Prefere até ser visto como um novo "genocida" do que como "corrupto", apesar das fartas evidências de que tornava a coisa pública privada.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que foi inicialmente informado, 43% acreditam que Bolsonaro é o principal culpado pela situação da crise e não 42%. Ou seja, a coluna ainda deu uma ajuda involuntária ao presidente.