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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'E daí?' de Bolsonaro às mortes por covid continua atual um ano depois

28.mai.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com simpatizantes e imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília - EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
28.mai.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com simpatizantes e imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília Imagem: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/04/2021 07h49

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre." Questionado no dia 28 de abril de 2020 sobre o Brasil ter ultrapassado a China em número de mortos por covid-19, o presidente Jair Bolsonaro deu essa declaração que se tornou símbolo de seu desdém diante da pandemia.

Naquele momento, o país registrava 474 mortos em 24 horas, totalizando 5.017 óbitos. Agora, exatamente um ano depois, temos 3.120 mortes em 24h, com 395.324 vidas perdidas.

Sua claque recebeu a declaração com risos em frente ao Palácio do Alvorada. Após um ano, ela continua lá, rindo de tudo o que ele diz. Já Bolsonaro está mais apreensivo, irritadiço, nervoso, porque uma CPI foi instalada, nesta terça (27), para investigar suas ações e omissões durante a crise.

O presidente viria a dar outras declarações semelhantes, seja eximindo-se pela catástrofe humanitária e econômica (e terceirizando a responsabilidade a governadores e prefeitos que implementaram medidas de isolamento social), seja desdenhando cobranças para que ele combatesse o coronavírus.

"Ninguém me pressiona pra nada, eu não dou bola pra isso", disse ele, por exemplo, na manhã de 26 de dezembro do ano passado, após ser questionado por jornalistas se havia pressão pelo fato de outros países, inclusive nossos vizinhos, já terem começado a vacinar sua população e nós não.

Vale lembrar que Bolsonaro havia se negado a comprar 70 milhões de doses da Pfizer, tentado sabotar a compra da CoronaVac pelo governo paulista, e se negado a fazer articulação para a compra de outras vacinas, além, da Oxford/AstraZeneca e do consórcio Covax Facility. Ações que custaram a vida de muita gente.

Como já escrevi aqui neste espaço, o "e daí?" do presidente é parente do "foda-se" do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, dito em fevereiro de 2020. Ele havia conclamado o presidente a não ficar "acuado" pelo Congresso Nacional (que pressionava para ficar com uma parte maior do Orçamento) e "convocar o povo às ruas". A indignação foi captada pelo áudio de uma live.

Vendo autoridades desdenhando a razão e não sendo responsabilizadas por isso, a população vai copiando. E passam a descumprir leis, regras e normas porque percebem que não valem muita coisa, mesmo. Neste momento, muitos ignoram os decretos estaduais e municipais e seguem as orientações do presidente, aglomerando-se de forma desnecessária, contaminando e se deixando contaminar, matando e morrendo. Cada um por si e Deus acima de todos.

Temos um presidente que, um ano depois, segue agindo da mesma forma, apostando no contágio amplo da população para atingir a imunidade de rebanho, mesmo que essa estratégia leve a muitas perdas.

Seja 5 mil ou 395 mil mortos, pelo menos ele é coerente. Pena que seja no desprezo à vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL