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Leonardo Sakamoto

Após acusar China, Bolsonaro refuga e assume que brasileiro é trouxa

Isac Nóbrega/PR
Imagem: Isac Nóbrega/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/05/2021 11h32

Após insinuar que a covid-19 pode ter sido criada pela China como parte de uma guerra biológica, Jair Bolsonaro não sustentou o que disse - de novo. Segue, assim, o padrão de cortinas de fumaça que lança para encobrir denúncias contra ele e seus filhos. E assume, dessa forma, que tanto os brasileiros quanto os chineses são trouxas.

Neste caso, tentou abafar as revelações que estão brotando na CPI da Pandemia. O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reforçou, na terça (4), que ele foi avisado que centenas de milhares morreriam e, mesmo assim, continuou sabotando o isolamento social. E o ex-ministro Nelson Teich disse, na quarta (5), que ele impôs a distribuição da cloroquina, apesar de sua inutilidade para a covid-19 e o risco de morte de brasileiros.

Na manhã desta quarta, Bolsonaro havia afirmado:

"É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas tá ai. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu o seu PIB? Não vou dizer para vocês."

Mas nem precisa: a China teve um crescimento recorde de 16,3% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o país economicamente relevante que mais cresceu.

À noite, contudo, quando a cortina de fumaça já havia surtido seu efeito, com o desvio de parte de atenção da imprensa e da sociedade para as suas bobagens, ele se fez de louco e disse que foi tudo intriga da imprensa.

"Mas eu não falei a palavra 'China'. Peraí, eu falei a palavra 'China' hoje de manhã? Eu não falei. Eu sei o que é guerra bacteriológica, o que é guerra química, o que é guerra nuclear. Eu seu porque tenho a formação. Só falei isso, mais nada. Agora, ninguém fala, vocês da imprensa não falam onde nasceu o vírus. Falem! Ou tão temendo outra coisa? Falem! A palavra 'China' não está no meu discurso de hoje, de quase 30 minutos de hoje. Agora, muita maldade tentar aí o atrito com um país que é muito importante para nós e nós somos importantes para ele também."

A última declaração emula o comportamento de crianças pequenas que xingam alguém sem dizer o nome e depois dizem que foram mal compreendidas, quando acusadas, afirmando que não disseram o que efetivamente disseram. Bolsonaro sabe que a sua fala da manhã atingiu a imprensa e excitou seus seguidores e, com isso, deu-se por satisfeito. Até que a China precise ser usada novamente para outra cortina de fumaça.

O problema é que a diplomacia chinesa não esquece. E não tem pressa em responder.

Caso ele tenha provas de que a gigante asiático criou um vírus em laboratório para uma guerra contra outros países, deveria trazer a público, contar ao mundo. Faria um bem enorme à humanidade. Contudo, acusando sem provas, apenas gera mais entraves junto ao nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de vacinas.

Não deixa de ser coerente com a sua política de sabotar o combate ao coronavírus para alcançar a imunidade de rebanho. Coerente e perversa.

Bolsonaro já usou a saúde coletiva como cortina de fumaça para encobrir outras denúncias. Por exemplo, no dia 4 de março, em Uberlândia (MG), chamou de "idiota" quem pede que ele compre vacina. "Só se for na casa da tua mãe! Não tem para vender no mundo!", afirmou. Algumas horas depois, em São Simão (GO), pisou no acelerador e sapateou em cima daqueles que choram sobre seus mortos. "Vocês [produtores rurais] não ficaram em casa, não se acovardaram. Nós temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"

Como efeito colateral, as declarações reduziram o espaço no debate público para a compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões por parte de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Denunciado por desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa, ele é acusado de comandar um esquema de "rachadinhas" quando era deputado na Assembleia Legislativa do Rio.

Os discursos dele também mergulham abruptamente no absurdo e no grotesco quando deseja tirar o foco de algo. Não que essa não seja sua natureza, mas algumas vezes Bolsonaro parece bolsonarista até demais.

Alguém que avança e retrocede sistematicamente passa também a imagem de que não sustenta o que diz. Ou seja, vive de ameaças vazias. Como um parente descompensado que, com o tempo, ninguém leva a sério e considera café com leite.

É o risco que Bolsonaro corre. As ameaças de autogolpe que ele profere não se concretizariam, pelo menos não fora do período eleitoral e cada vez mais as pessoas percebem isso. Essas estratégias, quando usadas à exaustão, demonstram fraqueza, não força.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), logo após o vídeo com a segunda declaração do presidente viralizar, resumiu a história: "Bolsonaro é, além de tudo, um frouxo".