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Leonardo Sakamoto

Sumiço da 2ª dose da vacina é resultado das decisões do governo Bolsonaro

Fila em posto de vacinação contra o coronavírus no Rio de Janeiro - Bloomberg
Fila em posto de vacinação contra o coronavírus no Rio de Janeiro Imagem: Bloomberg
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/05/2021 19h57

Milhares de brasileiros em cidades de todo o país não conseguem tomar a segunda dose da vacina contra a covid-19 por causa de duas ações e uma omissão do governo Bolsonaro. Sim, pode pôr na conta do Jair sem medo.

Uma ação incompetente: O então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, orientou, em fevereiro, prefeituras a usarem todo estoque de vacina para aplicar a primeira dose sem se preocupar com a segunda. A CoronaVac acabou por falta de matéria-prima e muita gente está esperando sua chance de completar a vacinação.

Se houvesse uma coordenação nacional do processo, com profissionais capacitados e não animadores de torcida de extrema direita, isso não aconteceria. Mas devido à falta de vontade política do governo federal em comandar tudo, alegando mentirosamente que o Supremo Tribunal Federal disse que ele não podia se meter, vivemos um "cada um por si e Deus acima de todos".

O mais irônico é que Pazuello, segundo ele, é um especialista em logística. Se o general é o que o Exército tem de melhor, então imaginem o pior.

Uma ação sabotadora: A China é o principal fornecedor de matéria-prima para a fabricação de vacinas no Brasil. Tanto o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) para a CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac e produzida pelo Instituto Butantan, quanto o da AstraZeneca, finalizada pela Bio-Manguinhos/Fiocruz dependem do gigante asiático.

Após remessas do Butantan para o Ministério da Saúde previstas para ocorrer até o final desta semana, com algumas milhões de doses, acabou. Para produzir mais CoronaVac, será necessário que a China libere os cerca de 10 mil litros de IFA que estão prontos para envio, o que representaria 18 milhões de novas doses.

Tanto o diretor do instituto, Dimas Covas, quanto o governador paulista João Doria afirmaram que a culpa pelo atraso é das declarações de Bolsonaro contra a China. No último dia 5, o presidente insinuou que os chineses criaram o vírus e se beneficiaram economicamente dele. Claro, não apresentou provas e, depois, disse que não disse o que realmente disse.

Uma omissão negacionista: A Pfizer ofereceu 70 milhões de doses de seu imunizante ao Brasil com data de entrega em dezembro de 2020. O governo ficou de mimimi com as condições apresentadas e não fechou o acordo - como deve ser confirmado pelo ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten, na CPI da Pandemia, nesta quarta (12). Jair chegou a dizer que quem tomasse o produto poderia virar "jacaré". Meses depois, meteu o rabo entre as pernas e assinou o contrato após o Brasil exigir ser vacinado.

A diferença entre o número de óbito em 31 de dezembro (195 mil) e agora (425 mil) é de 230 mil cadáveres. Parte deles não teria acontecido se o presidente tivesse aceitado o contrato que o resto do mundo aceitou. Mais ainda: muito provavelmente, não haveria fila esperando a segunda dose porque teríamos, pelo menos, três imunizantes sendo aplicados simultaneamente desde o início do ano, e não dois.

As ações e a omissão não são aleatórias, mas fazem parte de uma mesma lógica.

Desde o início da pandemia, Jair Bolsonaro decidiu estimular o contágio dos brasileiros com a intenção de que todos alcançassem imunidade de rebanho e o vírus parasse de circular. Sua aposta foi de que, assim, a economia retornaria mais cedo, o que não prejudicaria a sua reeleição.

O problema é que o efeito colateral dessa estratégia são centenas de milhares de cadáveres. Como ele acredita que 0,2% da população morta é menos impactante para seus planos políticos que 14,4% dos brasileiros desempregados, então segue a aposta mórbida.

Se tivéssemos um espanador ou uma vassoura ocupando a cadeira presidencial do Palácio do Planalto, neste momento, talvez uma parcela significativa da população já estaria vacinada. O espanador ou a vassoura ou mesmo um rodinho de pia não iriam articular a logística da vacinação, mas também não atrapalhariam, como Jair.

Portanto, lembre-se dele na próxima vez que sair de um posto de saúde com o braço abanando.