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Leonardo Sakamoto

CPI revela que bolsonarismo esnobou oxigênio venezuelano para Manaus

Cemitério em Manaus, em foto de janeiro - Reuters
Cemitério em Manaus, em foto de janeiro Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/05/2021 17h02

- O senhor ligou para a Venezuela?
- Não.
- O senhor agradeceu ao gesto do governo venezuelano?
- Não.

O ex-chanceler Ernesto Araújo respondeu dessa forma à CPI da Pandemia, nesta terça (18), ao ser questionado pelo vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), sobre a doação de oxigênio hospitalar feita pelo país vizinho no momento em que a capital do Amazonas sufocava.

Ele confirmou que a iniciativa foi da Venezuela e coube ao Itamaraty apenas o desembaraço burocrático.

Diante de sua incompetência em garantir que não houvesse falta do produto no Amazonas (o que demonstra falta de monitoramento de insumos para o combate à pandemia em nível nacional), o governo Jair Bolsonaro poderia ter solicitado oxigênio ao governo de Nicolás Maduro. Há uma estrada asfaltada ligando o Amazonas e Roraima à Venezuela.

Contudo, como implodiu as pontes diplomáticas com o vizinho, tendo ameaçado até entrar em guerra, não fez isso.

Vale lembrar que, enquanto Manaus precisava de oxigênio, o Ministério da Saúde, sob a batuta irresponsável do general Eduardo Pazuello, enviou uma missão para oferecer kit covid, composto de produtos comprovadamente ineficazes contra a doença. Uma "Maria Antonieta" com cloroquina e vermífugo no lugar de brioches.

O governo venezuelano acabou oferecendo caminhões transportando mais de 100 mil m³ em oxigênio que trouxeram o produto até território brasileiro, por conta própria e sem cobrar nada. O governo Maduro se aproveitou da ocasião para melhorar sua imagem? Claro. Mas o "presente" ajudou a salvar vidas. Se os países tivessem diálogo, isso poderia ter possibilitado um fornecimento ainda maior.

Naquele momento, seguidores de Jair Bolsonaro postavam nas redes sociais que o Brasil não queria o "oxigênio venezuelano", copiando ataques feitos pelo presidente da República, em outubro, rechaçando a "vacina chinesa de João Doria".

Ironicamente, tanto o oxigênio da Venezuela quanto a vacina da China ajudaram a evitar catástrofes maiores causadas pela sabotagem bolsonarista no enfrentamento à covid-19.

Houve uma enxurrada de fake news nas redes sociais, que tentaram reduzir o impacto simbólico da remessa, dizendo que ela havia sido bancada pela White Martins. Apesar disso ter sido desmentido por serviços de checagens de notícias, a base do governo na CPI ressuscitou, nesta terça, a fake durante a inquirição de Ernesto.

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse que "enquanto estava morrendo gente sem oxigênio em Manaus, o oxigênio da Venezuela estava vindo pela estrada". Ernesto Araújo se justificou diversas vezes em seu depoimento que o Ministério das Relações Exteriores apenas atendia às demandas do Ministério da Saúde.

O então chanceler Ernesto Araújo foi convocado para falar, em setembro do ano passado, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado a fim de esclarecer uma visita do então secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, a Roraima. Ela foi encarada pela oposição como uma provocação à Venezuela para criar um factoide útil à campanha de Donald Trump à reeleição. Naquela audiência, Araújo chamou o governo venezuelano de "bando de facínoras", "narcotraficante", entre outros adjetivos desabonadores.

O governo brasileiro não precisa gostar do grupo que está o poder no país vizinho para que, em um momento de desespero, peça ajuda. A falta de ação por parte do então chanceler Ernesto Araújo é fruto do mesmo bolsonarismo que nos tirou de mais de um século de relações internacionais marcadas pela independência e nos colocou como vassalos do governo Trump e de seus interesses geopolíticos.

Nesse sentido, torna-se mais importante cumprir a ideologia, alegrando os seguidores mais radicais que vão mantendo a sustentação do governo Bolsonaro, do que garantir que brasileiros sobrevivam. Ernesto prova que o governo é coerente. Pena que seja em nome da morte.