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Leonardo Sakamoto

Quantas Rebecas teríamos se lembrássemos dos atletas fora das Olimpíadas?

29.jul.2021 - A atleta brasileira Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica - Dylan Martinez/Reuters
29.jul.2021 - A atleta brasileira Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica Imagem: Dylan Martinez/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

29/07/2021 13h43

Quem, ao menos, não marejou os olhos com a prata de Rebeca Andrade na ginástica artística, esqueceu sua humanidade em algum lugar.

"Agora a gente tem a primeira medalha do Brasil na ginástica artística com uma negra. Isso é muito forte. Até pouco tempo os negros não podiam competir em alguns esportes", como bem resumiu Daiane dos Santos, primeira ginasta brasileira a conquistar um ouro em um Campeonato Mundial.

"É uma menina que veio de origem humilde, criada por uma mãe solo, veio de várias lesões para ser a segunda melhor atleta do mundo." Daiane ajudou a abrir o caminho trilhado por Rebeca. Vê-la celebrar o feito da colega, nesta quinta (29), custou outras tantas lágrimas.

Alguns que estão lendo este texto devem estar reclamando que isso é politizar o esporte. Ignoram que não há nada mais político do que uma mulher negra e pobre ter muito menos oportunidades no esporte e na vida ao nascer do que um homem branco e rico.

Sim, no Brasil, há meritocracia. Mas ela é hereditária.

A história de superação de Rebeca Andrade é incrível. Negra, pobre, periférica, filha de empregada doméstica, andava duas horas a pé para treinar no ginásio da Vila Tijuco, em Guarulhos, segunda cidade mais populosa do Estado de São Paulo, até que seu irmão conseguiu uma bicicleta para lhe dar carona.

Agora imagine quantas Rebecas deixam de desenvolver seu potencial e nunca foram e nem serão reveladas em algum projeto de educação esportiva porque faltou apoio por parte do Estado e também da iniciativa privada - que adora colar sua imagem aos vencedores do presente, mas investe menos do que poderia nas apostas do futuro.

O apoio ao esporte de base aumentou ao longo dos anos, o que tem se traduzido em resultados em campeonatos mundiais e Olimpíadas. Mas ainda estamos longe dos países que investem no esporte, como estamos longe dos países que investem na educação e ciência.

Tanto que, por aqui, cientistas rezam para que seus currículos Lattes e outras informações relevantes de sua vida acadêmica não tenham se perdido após computadores do CNPq fritarem por falta de manutenção decente.

O uso em abundância da palavra "meritocracia" esquece que o sucesso é uma somatória da atuação individual com o contexto em que a pessoa está inserida - que pode ser fértil ou não para talentos emergirem.

A ideia de que qualquer um pode chegar lá, basta querer, acaba sendo usada como uma verdade suprema e servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.

Achar que um estudante no interior do país que comia bolachas de lama, brincava com ossinhos de zebu, andava dez quilômetros por dia para chegar à escola e ainda trabalhava no matadouro do município para ajudar na renda da família parte com igualdade de condições com outro que frequenta uma escola com laboratórios que simulam gravidade zero e possui professores com pós-doutorado em Oxford e são remunerados à altura, que viaja para um lugar diferente todos os anos a fim de conhecer o mundo e não precisará trabalhar até o final da pós-graduação é um tanto quanto irracional.

Os dois podem chegar lá. Mas se o segundo caso cruza a linha de chegada mais vezes, o primeiro é um a cada milhão. Por isso, essas histórias são contadas e recontadas à exaustão: primeiro, nós gostamos de falar de vitórias na adversidade e, segundo, são histórias úteis para convencer os outros que se um consegue, todos podem sem que o Estado faça sua parte.

O que não é verdade. Pois, dessa forma, jogamos a responsabilidade de erros históricos não compensados e de uma desigualdade crônica de condições nas próprias pessoas que terão que vencê-las.

E esse discurso é tão bem contado que, não raro, é apoiado por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. "Tive uma infância muito pobre e venci sozinho mesmo assim. Se pude, todos podem." Parabéns para você. Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso?

Em tempos de Olimpíadas, é importantíssimo nos lembrarmos da caminhada e não apenas criticarmos os resultados finais, como muitos fazem.

Para que lembremos que nossos atletas existem, tanto os que já existem quanto os que ainda vão surgir, durante todo o tempo. E não apenas de quatro em quatro anos. E que eles nos trazem orgulho pelo que são e não só pelo que conquistam.