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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro foi claro, mas só 50% dos brasileiros creem em chance de golpe

O presidente Jair Bolsonaro em evento militar no Rio de Janeiro  - Mauro Pimentel/AFP
O presidente Jair Bolsonaro em evento militar no Rio de Janeiro Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/09/2021 21h25

Entre os deprimentes números da avaliação da gestão Jair Bolsonaro, divulgados na nova pesquisa Datafolha, o mais representativo do buraco em que nos encontramos saiu neste sábado (18): 50% da população consideram que há chances de o presidente da República tentar um golpe de Estado.

Vamos deixar claro a gravidade desta informação: metade acredita que temos no comando do país uma pessoa sem apreço às instituições democráticas, que seria capaz de passar por cima da Constituição Federal para aumentar os seus poderes ou se manter no cargo que ocupa caso perca a eleição ou tenha o mandato cassado.

E se 50% de nós sabem que o presidente é golpista, 53% também acham seu governo ruim ou péssimo, 54% reprovam sua gestão na pandemia e 56% defendem seu impeachment. Para o roteiro de pornochanchada sem graça que ele nos faz cumprir diariamente, os números ainda são baixos, seja pela resiliência de sua popularidade junto à sua base, o cansaço da população diante do sarapatéu em que se transformou o país desde o impeachment, o fato do avanço da crise econômica ainda não ter chegado ao seu auge. Mas, ao menos, metade já entende que vive na República Bananeira do Brasil.

Entre as categorias que não acreditam na possibilidade de golpe (45%), estão os mais ricos, os empresários, religiosos, de acordo com a pesquisa. Nesses setores da sociedade, há muita gente que se sente representada pelas atitudes do capitão. Parte, inclusive, não se incomodaria se algumas mudanças ocorressem à força para garantir que tenham ainda mais "liberdades" em relação ao restante da população.

As micaretas de 7 de setembro, principalmente as da avenida Paulista, em São Paulo, e da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, não foram uma tentativa de golpe, mas outro ensaio com aqueles que estarão nas ruas quando Jair decidir dar um golpe de fato, provavelmente nas eleições do ano que vem. Mais uma etapa das aproximações sucessivas que ele vem realizando desde que assumiu o poder.

Um avança e recua, um morde e assopra, em que cada passo novo conquista mais terreno. Desta vez, a arregada foi feia, com direito à cartinha do missivista Michel Temer, porque o ataque também foi, contando até com promessa de não seguir decisões judiciais do ministro Alexandre de Moraes. A propósito, o Datafolha apontou que 76% afirmam que se Jair deixar de cumprir decisões judiciais, merece se alvo de um processo de impeachment.

Ironicamente, no dia da porrada final, muitos dos apoiadores irão às ruas afirmar que o golpe já terá sido dado pelo Supremo Tribunal Federal, que impediu o "mito" de governar, e que, na verdade, o golpe será um contragolpe em nome da democracia. A derradeira fake news.

Se na cerimônia de promulgação da Constituição Federal, em outubro de 1988, uma pessoa alertasse que, 33 anos depois, metade da população acreditaria na possibilidade de um presidente eleito pelo voto popular dar um golpe de Estado, provavelmente com a ajuda de militares, policias, milicianos, ruralistas, fundamentalistas religiosos, empresários e militantes armados em nome de uma ditadura de extrema direita, seria tratada como piada.

Hoje, alguém que acredita nessa possibilidade para o ano que vem é tido apenas como uma pessoa bem informada.