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Leonardo Sakamoto

Governo de SP 'encolheu' ato contra Bolsonaro na Paulista, diz pesquisador

Ato contra Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo - 2.out.2021 - Eduardo Knapp/ Folhapress
Ato contra Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: 2.out.2021 - Eduardo Knapp/ Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/10/2021 02h42

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo produziu uma "estimativa inverossímil" ao afirmar que apenas 8 mil pessoas estavam presentes na avenida Paulista no auge do protesto contra Jair Bolsonaro, neste sábado (2), em São Paulo. A avaliação vem de pesquisadores que realizaram levantamento sobre o perfil dos manifestantes.

O tamanho das manifestações se tornou motivo de disputa nas redes sociais entre bolsonaristas e a oposição e os números vêm sendo usado muitas vezes de forma acrítica pela imprensa. Neste caso, imagens aéreas mostram que o Grito dos Excluídos, ato antibolsonarista no dia 7 de setembro, foi bem menor que o protesto da avenida Paulista do dia 2. E, mesmo assim, a SSP-SP afirma que ele teve quase o dobro do tamanho do segundo.

A questão levantada pelos ouvidos pela coluna é: se a metodologia usada pela Polícia Militar permite esse tipo de falha, não seria melhor não haver divulgação nenhuma para evitar acusações de uso político da estimativa? Ressalte-se que os bolsonaristas também reclamam que o número de 125 mil em seu 7 de setembro foi subdimensionado.

Não é a primeira vez que essa polêmica aparece. Um maior protesto na avenida Paulista pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 13 de março de 2016, foi estimado em 1,4 milhão pela PM e 2,5 milhões por alguns organizadores. Mas o Datafolha mediu, incluindo o fluxo de entradas e saídas, chegando a 500 mil.

"A estimativa da Secretaria de Segurança Pública é simplesmente inverossímil", afirma Pablo Ortellado, professor do curso de Políticas Públicas e um dos coordenadores do Monitor do Debate Político no Meio de Digital da Universidade de São Paulo.

O núcleo de pesquisa levou 22 pesquisadores à avenida para levantar o perfil dos participantes, repetindo o que já havia feito no 7 de setembro, com o ato bolsonarista, e no 12 de setembro, com o protesto organizado pelo MBL, o Vem Pra Rua e partidos políticos.

"A manifestação do dia 2 de outubro seguramente não foi 6% do tamanho da manifestação de 7 de setembro, para a qual a mesma SSP-SP estimou 125 mil participantes. Se na manifestação bolsonarista havia 125 mil, na da esquerda havia próximo à metade", afirma Ortellado.

O número de 8 mil tornaria a manifestação deste sábado praticamente com o mesmo tamanho do ato do dia 12, que, segundo a mesma secretaria, juntou 6 mil pessoas. Contudo, as imagens mostram que o 2 de outubro maior, estendendo-se por sete quadras, com maior densidade em duas delas.

Imagens mostram ato da oposição de 7/9 menor que do dia 2, mas secretaria diz o contrário

Ato da oposição a Bolsonaro no Anhangabaú no dia 7/9 é quase duas vezes maior que o de 2/10, segundo a SSP-SP - UOL - UOL
Ato da oposição a Bolsonaro no Anhangabaú no dia 7/9 é quase duas vezes maior que o de 2/10, segundo a SSP-SP
Imagem: UOL

É natural que organizadores sejam "otimistas" quanto ao número de participantes de seus eventos e discordem das estimativas oficiais. Contudo, os números da SSP-SP gerou revolta entre lideranças da oposição.

De acordo com Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e integrante da Frente Povo Sem Medo, é um "atentado aos fatos e às imagens" afirmar que haviam apenas 8 mil pessoas na avenida Paulista.

"Embora o ato no Anhangabaú [contra Bolsonaro, no dia 7 de setembro] sido expressivo, foi menor que o da avenida Paulista. Tínhamos, pelo menos, 50 mil pessoas no último sábado. Não há critério que justifique isso", afirma.

A coluna entrou em contato telefônico com a SSP-SP para entender os critérios da contagem da manifestação deste sábado. A assessoria limitou-se a informar que todas as explicações já haviam sido dadas em nota divulgada pelo órgão na noite do dia 2.

Ou seja: "A estimativa da Secretaria da Segurança Pública foi realizada a partir do uso de imagens aéreas, análise de mapas e georreferenciamento, determinando a extensão do movimento ao longo da avenida, bem como nas áreas adjacentes". E só.

"É difícil compreender a que interesse serve o governo do Estado ao fazer um julgamento tão disparatado como esse", reclama Boulos.

Falta medição de manifestações usando metodologia segura

A questão numérica não é puro interesse acadêmico, pois ela tem sido usada como munição no debates entre o presidente e os críticos ao seu governo. Quanto mais gente nas ruas contra Bolsonaro, mais pressão popular é jogada contra os deputados do centrão e contra o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) - que está sentado em cima de 138 pedidos de impeachment.

Os protestos contra Jair Bolsonaro de maio e junho deste ano reuniram um público igual ou maior que o ato bolsonarista de 7 de setembro, contando com a presença de mais jovens e estudantes que os atos posteriores. Os mais recentes atos da oposição não juntaram público comparável aos 125 mil.

Para evitar uma guerra de números e de notícias falsas, seria necessário a medição de todos os atos usando a mesma metodologia. Isso é defendido por Pablo Ortellado.

"Hoje não temos ninguém fazendo estimativas de público em protestos com metodologia segura. As estimativas da Polícia Militar não são transparentes e não parecem metodologicamente embasadas e as estimativas dos organizadores normalmente são intuitivas e exageradas", avalia.

A saída, para ele, seria "consorciar veículos de imprensa e pesquisadores universitários para produzir estimativas seguras, ainda que baseadas em metodologias simples como a contagem de cabeças por software a partir de fotos aéreas ou a projeção da densidade de pessoas na área do protesto".

Até que isso aconteça, as contagens divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública continuarão virando memes ou servindo na guerra de narrativas.