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Leonardo Sakamoto

Com recessão, Brasil do ar condicionado descobre o Brasil que come do lixo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/12/2021 09h12

Com a segunda queda trimestral consecutiva do PIB, o Brasil das planilhas de Excel finalmente se encontrou com o Brasil que disputa restos e ossos no tapa para alimentar os filhos. Esse segundo país sabe que estamos na lama há muito tempo, mas é difícil ouvir seus gritos quando escritórios com ar condicionado em Brasília ou na Faria Lima são hermeticamente fechados.

Após o IBGE divulgar, nesta quinta (2), a queda de 0,1% após outra queda de 0,4%, economistas discutiram longamente se entramos em recessão ou é "apenas" estagnação.

Do ponto de vista de uma das mulheres que corria atrás do caminhão de lixo em Fortaleza, isso importa menos do que se vai encontrar uma pelanca aproveitável. "O pão de cada dia quem me dá é o lixo. Todo dia, meus filhos e eu vamos para o lixo para comer." Sim, em termos de provimento social, o lixo é mais eficaz do que o Estado brasileiro para algumas pessoas.

Quando, há um ano, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontou que 19,1 milhões passavam fome em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida, era o caso de parar tudo e focar nisso. O governo, pelo contrário, preferiu suspender o auxílio emergencial por 96 dias.

Naquele momento, parlamentares do centrão já avaliavam que Jair Bolsonaro precisaria do auxílio emergencial mais em 2022 do que neste ano a fim de viabilizar a sua reeleição. E é o que ele fez: deixou pessoas passarem fome com a interrupção do benefício em meio ao apogeu da pandemia, retomou com um valor que não comprava 25% da cesta básica em grandes cidades e agora se prepara para pagar, pelo menos, R$ 400 no ano eleitoral.

Sem um projeto para a geração de empregos de qualidade, o governo federal festeja uma queda na taxa de desemprego que, na verdade, reflete o avanço da vacinação - o que possibilita a retomada. Mas considerando que Jair sabotou a compra de vacinas, essa queda não é mérito dele.

Mas o vácuo de projeto econômico vai gerando monstros. A renda média dos trabalhadores recuou 4% no terceiro trimestre do ano em relação ao trimestre anterior, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada na quarta (30). Ao atingir R$ 2.459 chegou ao menor rendimento médio (descontado a inflação) desde o quarto trimestre de 2012.

É normal que uma retomada do mercado de trabalho ocorra primeiro com postos de trabalho precários. Mas o Brasil, que fez a promessa vazia de uma revolução com a Reforma Trabalhista de 2017, vai tornando permanente aquilo que seria passageiro. O otimismo de Paulo Guedes não é compartilhado pelos trabalhadores por conta própria, especializados em ganhar pouco e se virar para sobreviver, que são uma das grandes forças motrizes dessa retomada.

Se tudo isso já não fosse muito ruim, as micaretas golpistas promovidas pelo presidente da República para excitar seus fiéis e distrair a sociedade de seu governo incompetente ajudaram a trazer instabilidade política. A falta do tal projeto econômico reduziu a credibilidade. O negacionismo diante das mudanças climáticas fez com que o governo não se preparasse para a previsível seca nos reservatórios das usinas. O dólar subiu, a inflação galopou, os combustíveis explodiram, a energia elétrica está pela hora da morte.

Discute-se nos escritórios hermeticamente fechados, onde a vida sempre ocorre na faixa entre 17º e 21º Celsius, o que fazer com recessão/estagnação diante da percepção de que o país foi largado à própria sorte pelo governo.

O pessoal bem de vida junta-se, assim, às dezenas de milhões que entenderam desde cedo, morrendo por covid, vendendo bolo na rua ou passando fome, que, sob Jair, é cada um por si e Deus acima de todos.