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Leonardo Sakamoto

Ministro ameaça vender Petrobras para livrar Jair de desgaste pela inflação

Divulgação/ Agência Brasil
Imagem: Divulgação/ Agência Brasil
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

12/05/2022 03h33

Ao lançar a proposta de privatizar a Petrobras, o novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, ajudou o chefe em sua cruzada para terceirizar a culpa pelos constantes aumentos nos combustíveis. E, de quebra, joga um biscoito para que a elite econômica vista a camisa do bolsonarismo, como fez em 2018.

Em seu primeiro discurso à imprensa, o substituto do almirante Bento Albuquerque, defenestrado por Bolsonaro, afirmou que vai solicitar estudos para vender o controle da empresa e que isso foi "expressamente apoiado" pelo presidente.

Nem precisava ter dito. Jair já falou com todas as letras que não aguenta mais ser responsabilizado pelas altas nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha e, por isso, quer vender a empresa. O que é natural para alguém que se especializou em terceirizar os ônus do cargo que ocupa.

"Aumentou a gasolina? Culpa do Bolsonaro! Eu já tenho vontade de privatizar a Petrobras, tenho vontade. Vou ver com a equipe econômica o que a gente pode fazer. Eu não posso, não é controlar, mas melhor direcionar o preço de combustível. Mas quando aumenta, a culpa é minha", afirmou em 14 de outubro do ano passado. Sachsida, que saiu exatamente da equipe econômica, atendeu ao chamado.

Cada vez que o presidente ameaça o país com um golpe de Estado, a instabilidade política ajuda o dólar a subir, o que aumenta ainda mais o preço dos derivados de petróleo aqui no país. Mas o Congresso e a Procuradoria-Geral da República tratam-no como inimputável.

O governo sabe que é mais fácil o tal camelo passar pelo buraco da tal agulha do que ele conseguir privatizar a Petrobras. Primeiro, porque ele foi incapaz de levar a cabo o programa de privatizações que prometeu na campanha. E, além disso, não há ambiente político para isso, principalmente do ponto de vista da opinião pública.

Não que isso não possa mudar se um hipotético segundo mandato de Bolsonaro tiver cara de ditadura chilena - para a alegria dos economistas que tinham pôster de Pinochet na parede do quarto quando jovens.

Ataques a Petrobras funcionam como cortina de fumaça para a inflação

Neste momento, todo esse discurso serve para tentar convencer caminhoneiros, taxistas, motoristas e entregadores de aplicativos, entre outros, que o presidente está fazendo tudo ao seu alcance para reduzir o preço, mas a Petrobras não deixa o Brasil ser feliz.

Em outros momentos de alta nos combustíveis, Bolsonaro já ameaçou intervir e trocou presidentes da empresa - saiu Roberto Castello Branco, entrou o general Silva e Luna - que, depois, foi substituído por José Ferreira Coelho. Nenhum deles mudou a política de preços, mas o que importa é a impressão que Bolsonaro está se mexendo.

Ultimamente, ele vem atacando a empresa em público. E, finalmente, autorizou seu novo ministro bolsonarista a prometer a venda. No curto prazo, o efeito é mais uma distração para um governo que não investiu em refinarias e não discutiu com o Congresso a política de paridade do preço do petróleo com o dólar.

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara e sócio de Bolsonaro, já defendeu a privatização. "Essa é a pergunta que tem que ser feita: então não seria o caso de privatizar a Petrobras? Não seria a hora de se discutir qual a função da Petrobras no Brasil? É só distribuir dividendos para os acionistas?", questionou Lira também em outubro do ano passado.

Para muita gente no parlamento, isso pode ser um bom negócio, mesmo com a perda de possibilidade para indicação de diretores. Se conseguiram fazer um projeto de privatização da Eletrobrás que irá tirar dinheiro dos consumidores brasileiros para beneficiar um empresário do setor de gás, imagine o que farão com a Petrobras?

Vale lembrar que o governo é o maior dos acionistas e, portanto, recebe já maior fatia do lucro da empresa. Que vai para o caixa do governo. Que, por sua vez, tem que pagar os bilhões de emendas secretas distribuídas por Lira para garantir poder sobre deputados.

Se o presidente da Câmara está tão preocupado com os pagamentos de dividendos aos acionistas, deveria tomar coragem e promover uma discussão espinhosa sobre a relação entre o preço do petróleo e o dólar no país. Mas não vai fazer isso. Para apoiar o presidente, que funciona como sua galinha dos ovos de ouro, preferiu autorizar mudanças no ICMS, que financia educação, saúde, habitação nos Estados.

Campeão olímpico na modalidade de Arremesso de Culpa à Distância, Bolsonaro vai conseguindo causar um barulho maior do que o ruído estridente dos preços subindo, distraindo a imprensa e a população.