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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sob Bolsonaro, o genocídio negro por bala e fome ganhou a câmara de gás

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/05/2022 15h14

Genivaldo de Jesus Santos, negro, 38 anos, desarmado, que dirigia uma motocicleta velha e vivia com uma doença mental, foi assassinado por policiais rodoviários federais que o trancaram em um porta-malas de uma viatura e acionaram uma bomba de gás para lhe fazer companhia, em Umbaúba (SE). Com essa barbárie, o genocídio negro brasileiro faz um upgrade e chega ao patamar do cinismo despudorado.

O Instituto Médico Legal (IML) aponta que a investigação preliminar mostrou morte por insuficiência respiratória após asfixia. Em nota oficial, a PRF afirma que foram empregados "instrumentos de menor potencial ofensivo" para contê-lo. Claro que o redator da nota nunca ficará trancado com uma bomba de gás para defender essa tese.

A PRF, que tem feito um excelente trabalho em ações de combate ao trabalho escravo e ao tráfico de seres humanos, envolveu-se, em um prazo de dois dias, em uma das maiores chacinas policiais da história do Rio e na morte de um homem usando uma câmara de gás em praça pública em Sergipe.

Choca o fato de os policiais não se importarem com a quantidade de pessoas acompanhando e gravando as cenas da execução, que viralizaram nas redes sociais. Não temiam punição por torturarem alguém, feito que conta com a ajuda de Jair Bolsonaro, defensor ferrenho do excludente de ilicitude, ou seja, da licença para matar. E que elogia chacinas, como a da Vila Cruzeiro.

Mas só isso não explica o quadro, uma vez que chacinas e mortes de negros pobres não surgem agora. Aqui ,esse tipo de barbárie é legitimada porque vidas negras valem menos.

Alguns vão dizer que não há ordens diretas para matar negros pobres vindas do comando do poder público. Mas nem precisaria dado o nosso racismo estrutural, que se impregna nas instituições. Isso ajuda a explicar porque a Zona Sul do Rio nunca terá seu dia de Vila Cruzeiro, apesar de muitos criminosos ricos e violentos morarem por lá. Ou que um branco rico dificilmente seria tirado de sua moto pornograficamente cara e jogado numa câmara de gás mesmo que esculachasse o policial na abordagem.

Negros são 53% da população brasileira, segundo o IBGE, mas 76% das vítimas de homicídios segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Ipea. Pelas mãos da polícia, da milícia, do tráfico, de empresas e de autointitulados cidadãos de bem.

Montanhas de corpos negros cravados de bala já se tornaram parte da paisagem no Rio de Janeiro ao lado do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar. Tanto que a chacina no Rio de Janeiro, após uma ação policial desastrada, nesta terça (24), confundiu quem achava que a matança na Vila Cruzeiro havia sido em fevereiro. Foram duas no mesmo lugar em 2022. E, tendo em vista o apoio do governo estadual e do Palácio do Planalto, pode vir mais. Tudo em nome de uma política de segurança que protege o "cartão postal" contendo os "indesejáveis".

Mas corpos negros sufocados já eram cena comum antes mesmo de Genivaldo. Por exemplo, João Alberto Silveira de Freitas morreu por asfixia em 19 de novembro de 2020, ao ser espancado por seguranças do supermercado Carrefour, em Porto Alegre. Um ano antes, em 14 de fevereiro de 2019, Pedro Henrique Gonzaga foi morto por um segurança do supermercado Extra na Barra da Tijuca asfixiado após uma gravata. Tal como fizeram familiares de Genivaldo, a mãe de Pedro pedia para o segurança parar, mas ele não parou.

Claro que no caso de Sergipe há o agravante de ser um funcionário público, mas todos bebem na mesma fonte dos torturadores da ditadura, que aprimoraram os métodos de controle dos indesejáveis, em voga por aqui desde a fundação do país. Enquanto isso, uma parte de nós, não negros, lamentamos, mas tocamos em frente porque sabemos, no fundo, que não é com a gente.

Da mesma forma que balas perdidas encontram corpos negros nas favelas e inspeções aleatórias param motociclistas negros, a doença e a fome também atingem mais pessoas negras. Por coincidência, claro.

O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, afirmou, em 2021, que a fome esteve presente em 10,7% das casas de pessoas negras, enquanto na casa das brancas era em 7,5%.

Já dados do Mapa da Desigualdade, baseado em levantamento entre janeiro e julho do ano passado pela Rede Nossa São Paulo, mostram que, mesmo no rico bairro do Itaim, 47,6% das mortes de negros ocorreram por causa da Covid-19 enquanto que, entre a população branca, foram 28,1%. Já no Cambuci, bairro de classe média baixa, 48,1% das mortes dos negros eram pela doença e, entre os brancos, a taxa estava em 29,1%.

Seria ótimo para a consciência dos brasileiros se os torturadores e assassinos, policiais ou não, fossem apenas pessoas demoníacas incentivadas por outras pessoas demoníacas. Porque assim, o mal, estaria justificado e longe de nós.

E também seria ótimo culpar apenas o presidente da República e governadores de Estados, que incentivam a matança e fazem política com o sangue de pessoas, porque não conseguem ou não querem combater a criminalidade com inteligência e planejamento, até porque preferem a guerra, pois se alimentam dela. Com dinheiro e poder.

Mas, no final do dia, temos que nos perguntar o quanto da merda do racismo estrutural está impregnada em nossos amigos, colegas de trabalho, familiares ou em nós mesmos, fazendo com que reconstruamos diariamente o sistema que leva até a normalização dessas torturas e mortes. Sistema que aceita, naturalmente, que um bebê negro morra por falta de saneamento básico em uma grande cidade.

Virão outras mortes, enterrando esta, e nós nos esqueceremos do nome de Genivaldo como nos esquecemos do nome de João Alberto - que tinha tudo para ser nossa versão de George Floyd, o homem negro asfixiado até a morte por um policial nos Estados Unidos, que levou a massivos protestos de rua por lá.

Se esta morte não valer protestos em todo o país, nem um arranhão deixado na caçarola por uma noite de bateção de panelas, ela acabará chancelada pelo silêncio de um país. Que acha, de forma cômica, que o racista é sempre o outro.