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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Silêncio de Bolsonaro sobre assédio sexual é apoio explícito ao agressor

Best Friends Forever: Pedro ri gostosamente com Jair durante evento - Antonio Cruz/Agência Brasil
Best Friends Forever: Pedro ri gostosamente com Jair durante evento Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/07/2022 15h22

Jair Bolsonaro ainda não se manifestou sobre o escândalo de assédio sexual e moral envolvendo o, agora, ex-presidente da Caixa Pedro Guimarães. Em sua live semanal, nesta quinta (30), silêncio.

As investidas asquerosas reveladas por mulheres corajosas que acabaram desencadeando uma sequência de denúncias de casos de humilhação e tortura psicológica sobre trabalhadores do banco não mereceu um mísero "putz!" de um presidente que fala tanto que acaba dando tchau para cavalo.

Entre os seus aliados, o silêncio é celebrado. Teme-se que, se abrir o bico, Bolsonaro vá passar pano para Guimarães, acusado de pressionar por sexo e apalpar seios e nádegas de funcionárias, colocar pimenta na comida dos trabalhadores para "incentivá-los" e ridicularizar subordinados em público, agindo como um pequeno déspota.

Quem acha que Jair não iria tão longe, lembre-se que o presidente ficou calado depois que veio a público a história da menina de 11 anos, grávida após ser estuprada, que teve o aborto legal negado pela Justiça em Santa Catarina. E, quando se manifestou, foi para criticar o aborto que, enfim, a vítima teve acesso após o caso vir a público.

Nas redes simpáticas ao presidente, Pedro Guimarães se tornou um mártir do bolsonarismo por se tornar alvo de investigação por assédio sexual no Ministério Público Federal. O que nos leva a crer que, se não estivéssemos em ano eleitoral e se Jair não tivesse apenas 21% de intenção de voto entre as mulheres enquanto Lula ostenta 49%, talvez o ex-assessor fosse condecorado e ganhasse tapinhas nas costas.

Como Bolsonaro não ia amar um subordinado que tentava nele se espelhar o tempo todo, inclusive no machismo?

Por exemplo, o presidente agride jornalistas homens e mulheres, mas os golpes mais violentos e criminosos ele guarda para elas, como foi com a repórter Patrícia Campos Mello. Da mesma forma que Pedro Guimarães maltratava, sim, funcionários homens e mulheres, mas elas ainda tinham que aguentar os seus ataques sexuais.

"Caguei para a opinião de vocês porque eu que mando", afirmou o então presidente da Caixa à sua equipe, segundo o portal Metrópoles - que trouxe as denúncias a público.

A frase poderia muito bem ser dita por Bolsonaro diante das cobranças para que se manifeste. "Caguei para a opinião de vocês."

Dessa forma, seu silêncio deve ser lido não apenas como um sinal de conivência e de solidariedade com o agressor, mas também um gesto de apoio explícito ao seu próprio comportamento, que inspirava diariamente a misoginia de Pedro Guimarães.