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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No capitalismo bolsonarista, 17% vendem seus bens para comprar comida

Moradores reviram caminhão de lixo em busca de restos de comida em frente a supermercado de Fortaleza, capital do Ceará - Reprodução/TikTok/André Queiroz
Moradores reviram caminhão de lixo em busca de restos de comida em frente a supermercado de Fortaleza, capital do Ceará Imagem: Reprodução/TikTok/André Queiroz
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/08/2022 18h26

Um dos dados mais desconcertantes da nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta terça (2), é que 17% das famílias tiveram que vender algum bem ou objeto de valor nos últimos meses para adquirir alimentos e itens básicos.

A situação é pior entre aquelas que recebem até dois salários mínimos por mês (24% venderam bens), as que são beneficiadas pelo Auxílio Brasil (27%) e as que estão desempregadas (32%). A margem de erro é de dois pontos.

É importante frisar que, neste caso, "bens" não são criptomoedas, ações da Petrobras ou barras de ouro - muito na moda junto a pastores amigos do presidente. Na maioria das vezes, estamos falando de um celular que não é grande coisa, uma TV usada, o carro velho empregado no trabalho.

Essa "irresponsabilidade" dos mais pobres, que - veja só - se desfazem de seus bens só porque precisam comer, remete a uma declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, que se tornou tristemente icônica desta quadra histórica.

"Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo", afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em novembro de 2019, ao defender mudanças radicais na Previdência Social.

No Brasil do multiverso do doutor, isso deve acontecer porque os pobres são gastões. Nesta realidade, contudo, eles mal ganham para sobreviver, tendo que vender seu patrimônio para comprar comida, que dirá juntar alguma coisa.

O mesmo Datafolha apontou que um em cada três brasileiros afirma que a quantidade de comida em casa nos últimos meses não foi suficiente para alimentar a família. O total nessa situação passou de 26%, em maio, para 33%, em julho.

Dos entrevistados, 23% dizem que substituíram leite por soro de leite. E 20% consumiram sobras de frango e carne ou pele de frango.

Fome foi agravada pela inoperância do governo

A falta de percepção do governo sobre as dificuldades do andar de baixo explica a razão pela qual o ministro da Economia, no início da pandemia de covid-19, em 2020, propôs um auxílio emergencial de R$ 200 por mês. Graças ao Congresso Nacional, o valor acabou sendo de R$ 600/R$ 1200 por domicílio.

No ano seguinte, enquanto o número de mortes escalava mais de 4 mil por dia, o governo empurrava a volta do benefício (suspendido em 31 de dezembro de 2020) com a barriga. Dizia que as contas do país não aguentariam. Após muita pressão e chantagens fiscais, o pagamento começou a retornar no início de abril.

Agora, o governo marcou para a terça que vem (9) o pagamento do Auxílio Brasil anabolizado pela PEC da Compra dos Votos, que passará de R$ 400 para R$ 600/mês, bem como o vale-gás de R$ 110 a cada bimestre. Mas só até o final da eleição, quer dizer, do ano.

Se a gestão Jair Bolsonaro tivesse atendido aos pedidos da oposição e da sociedade civil para aumentar o valor ainda no ano passado, poderia ter evitado que chegássemos a uma catástrofe de 33,1 milhões de famintos. Mas, aí, a lembrança do benefício eleitoral se dissolveria no tempo.

O contexto de tudo isso é triste porque, durante a pandemia de covid-19, entre 2020 e 2022, o número de pessoas que passam fome no Brasil passou de 19,1 milhões para 33,1 milhões e a quantidade de pessoas e famílias com mais de um bilhão de dólares de patrimônio foi de 42 para 62.

Os dados sobre a fome são da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) e tem margem de erro de 0,9 ponto. E sobre os bilionários são da atualização anual da lista das pessoas mais ricas do mundo, divulgada em abril, pela revista Forbes.

Vender bens para comprar comida é semelhante a uma proposta do próprio governo. Desesperados com as pesquisas de intenção de voto que mostravam a inflação de dois dígitos ajudando Lula a conseguir um terceiro mandato, Jair Bolsonaro e equipe propuseram que o Brasil vendesse o fogão da casa para ajudar a comprar o almoço. Mesmo sabendo que isso não garantia o jantar.

Defendeu uma emenda constitucional para cortar impostos de combustíveis apenas até o final do ano. O custo disso ficaria, segundo a incrível precisão de Paulo Guedes, entre R$ 25 bilhões e R$ 50 bilhões.

Os recursos para isso, segundo ele, poderiam vir da privatização da Eletrobrás. Ou seja, Bolsonaro propôs evaporar patrimônio público de um setor estratégico para ser queimado nos motores de caminhões, carros e motos até o final do ano.

E se tempo hábil houvesse, a Petrobras seria queimada no mesmo processo. Para ajudar o presidente e alegrar o naco do setor financeiro que não vê problema de passar por cima da democracia, desde que os lucros continuem satisfatórios.